segunda-feira, 23 de maio de 2011

«Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!»



Meus queridos,

Venho por este meio quebrar um voto de silêncio que se prolongava enquanto assistia impávida e serena ao soçobrar da sanidade mental portuguesa.

«Porquê?» perguntam-me vocês, meus queridos, e eu respondo-vos: porque nunca se viu tal esquizofrenia assolar uma sociedade inteira! Ou apenas meia-sociedade, vá. Seremos somente meio-radicais em vez de radicais e meio...

O que aconteceu à populaça revolta que berrava impropérios contra um governo decadente? Num espaço de poucos meses, essa populaça emudeceu, talvez cedendo ao mesmo voto de silêncio que eu vinha perpetuando, sentada no sofá, enquanto o gato Matias aprendia a assaltar o frigorífico e roubava as refeições que as senhoras da Santa Casa da Misericórdia me trazem todos os dias. Até aí, tudo bem, pois, de súbito, aconteceu aquilo por que todos gritavam e ficaram todos a pensar «E agora?»

O governo caiu, conseguimos que os incompetentes cedessem à sua própria incompetência. E agora? Como é que vamos meter o país de pé, que o bicho está gordo e pesado?

Ora, eu fiquei calada, para que quem tivesse ideias se fizesse ouvir.

Todavia, em vez da chegada de um D. Sebastião, continuámos com os mesmos de sempre e, que eu saiba, não apareceu nenhum messias que nos guiasse na direcção do Quinto Império tão apregoado pelo nosso Nandinho do café Nicola. E agora?

Agora, estão todos confusos, esquecidos do que os trouxe até aqui. Há ainda quem pondere voltar a meter ao volante os mesmos que espatifaram o carro! Eles deviam ter ficado sem carta! Quem é que os deixou levantarem-se e dizer «Não se preocupem, isto é só uma amolgadela, se nos deixarem pegar novamente no carro, resolvemos tudo com fibra de vidro e o país fica como novo»? O senhor Sócrates devia estar nos Alcoolicos Anónimos e se o deixarmos pegar no volante outra vez, bem podemos telefonar para a socateira mais próxima!

Estou revoltada. Verdadeiramente revoltada! E Grito!

VOTA, POVO DE PORTUGAL! VOTA À DIREITA, VOTA À ESQUERDA, VOTA NO MEIO, VOTA PELA FRENTE OU POR TRÁS! MAS NÃO SEJAM CRETINOS AO PONTO DE FAZER COM QUE O PAÍS FIQUE NAS MESMAS MÃOS!

O senhor Sócrates já teve seis anos para provar competências e incompetências. Mesmo que não apareça nenhum nadador-salvador, dêem a vez a outro, porque este já mostrou que não sabe nadar e ainda nos arrasta com ele para o fundo do mar. E podem ter a certeza de que aí nem o Moby Dick nem a Júlia Pinheiro nos podem salvar.

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Morta e Engaiolada!


Depois deste incidente com os ladrões em Northampton, o meu filho Zé decidiu que estava na hora de trazer a mãezinha de volta para casa, antes que se metesse mais em sarilhos e acabasse magoada.

Sinceramente, para mim, trazerem-me de volta para Portugal porque não estou segura na Grã-Bretanha é uma enorme piada de mau gosto!

Ora, a primeira notícia que vejo na televisão quando regresso ao meu velho sofá (nem foram capazes de lhe limpar o pó, na minha ausência! Falta de consigre... consigra... uma falta de consigração por quem lhes limpou o rabo quando eram crianças! Uma falta de consigração por quem lhes batia no rabo quando diziam algum palavrão! Eu é que fiz desta família pessoas adultas e de respeito!...)

Onde é que eu ia?

Ah, sim. O sofá...

Sentei-me no sofá, em cima do gato Matias (tive que lhe dar uma bengalada quando me ferrou as unhas no rabo), liguei o televisor, e qual é o meu espanto quando descubro que deixaram uma senhora de idade, em tudo como eu, falecer e apodrecer na sua própria casa durante 9 anos!

Estou chocada! Verdadeiramente chocada! Eu estive na Tailândia e nunca vi tal coisa acontecer! Aliás! Melhor do que isso é o que lá fazem aos drogados! Quando os apanham, nunca mais saiem da cadeia, os desgraçados!

Faleceu a senhora, o cão ao pé do frigorífico e os piriquitos engaiolados, tal como a dona! O primo que a ia visitar todas as semanas foi à polícia, onde lhe diziam que não podiam fazer nada sem ordens do tribunal. Foi 13 vezes ao tribunal e tudo o que conseguiu foi que se rissem na sua cara. Foi preciso o governo, aquela cambada de esfomeados, querer vender a casa para cobrar as dívidas da senhora, que só não as pagou porque estava morta, para que alguém arrombasse a porta e se deparasse com aquele pesadelo.

Se o primo invadisse a casa sem consentimento das autoridades, ia preso. Até o podiam culpar da morte da senhora... Os próprios vizinhos apostavam que a mulher lá estava morta. Toda a gente o sabia. Os que queriam fazer alguma coisa não podiam e os outros não queriam e prontos!...

Enfim, meus queridos... Agora, que estou de volta, e encontro a minha neta casada com a fuf... Oh, Meu Deus! Perdoa-as... Casada com a fufa Diana! Ai, Meu Deus... Elas não fazem por mal. Não sabem as ofensas que Lhe fazem, Ó Senhor...

Bem, encontrei a minha querida Olívia assim e já tive uma conversa séria com ela e com o meu advogado. Ela tem a chave da minha casa e está autorizadíssima a abrir a minha casa sempre que pensar que eu estou morta e padecida! Tenho-vos a vós, meus queridos, como testemunhas das minhas palavras. Além disso, escondi ainda outra chave, caso a moça perca a chave que eu lhe dei (é muito aluado, aquele trambolho tonto que me está sempre a ajudar), nas traseiras do meu quintal, por baixo daquela raíz do pessegueiro com a forma de uma morsa de barriga para cima! Não digam a ninguém! Só ela é que sabe!

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Travar os gatunos em Northampton!



Meus queridos,
Como devem ter visto hoje nas notícias, tenho estado a gastar os últimos cêntimos da minha pensão para viajar pelo mundo e meter silicona nos meus peitos, razão pela qual não tenho tido tempo para partilhar convosco as minhas desventuras.
No entanto, deixo aqui convosco este vídeo.
Ora, como podem verificar, estava eu a passear em Northampton quando vejo aqueles gatunos a assaltar a joalharia! Pois eu sei muito bem aquilo porque os joalheiros passam, porque já trabalhei num sítio desses, nos primeiros anos em que vivi em Lisboa. Estamos nós, na loja, a resistir à tentação, com aquele ouro todo à nossa volta, a contrariar os nossos instintos para não sorripiar um único anel de diamante e, volta na volta, aparece sempre algum gatuno a tentar estragar tudo!
Pois eu digo que isso é frustrante para quem lá trabalha! Se os empregados não podem meter nada para o bolso, os dorgados também não!
Assim, ao ver aquela ladruagem, decidi correr em auxílio dos que não faziam nada para prevenir aquela injustiça, e toca de arrear neles! Dei cabo daquela vadiagem toda! Aquilo é que foi vê-los a berrar pela Nossa-Senhora dos Aflitos!

Com a Antonieta ninguém se mete, ou não me chamo
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

Beijinhos a todos! Espero mandar-vos mais uns postais em breve!

domingo, 4 de julho de 2010

Os Golos do Cristiano!


Olá, meus queridos!
Confesso que não sou nenhuma fã de futebol, mas este ano foi impossível ficar indiferente. Este Mundial do futebol lá nas Áfricas foi a única coisa que me fez ter saudades do lar de idosos. Aquelas malditas vuvuzelas conseguem esfrangalhar-me a cabeça! Sempre que algum garotito mais atrevido começava a tocar uma daquelas cornetas ao pé de mim, era certo que ficava sem ela! Desengane-se quem pensa que as bengalas servem para nos ajudar a andar. São armas de defesa, pefeitas para açoites no rabo, rasteiras e partir vuvuzelas!
Entretanto, aquele Cristiano Reinaldo disse-me umas coisas que eu não percebi. E, sinceramente, é óbvio que ele também não. O resultado está à vista! Hum...
O gaiato é muito agradável à vista, definitivamente. Juro-vos que começo logo a ver melhor quando ele aparece na televisão. Mas não é disso que eu vos quero falar. As barbaridades que saiem daquela boca! E não me refiro à saliva que ele cuspia quando tinha aparelho! Ele, agora, já não tem aqueles arames nos dentes. Pois bem... Passo a explicar-me: O que é que foi aquela coisa do quetechape? Aliás, o que é o quetechape? O Cristiano disse que os golos eram como o quetechape: Custava a sair, mas depois nunca mais parava.
Meu filho: na minha terra, Casais da Desgraça, isso chama-se Prisão de Ventre, e cura-se com um bom laxante!
Ao que parece, o quetechape não resultou, porque só marcou aquele golito trapalhão no mesmo jogo em que toda a gente conseguiu marcar. O rapazito ainda andou de beicito pendurado com inveja dos outros meninos, porque todos marcavam golos menos ele. Mas finalmente lá se refez e enfiou a bola na baliza.
Diz-se que ele falhou e foi o responsável pela derrota portuguesa... E o rapazito rematou que se queriam saber quem era o culpado que falassem com o treinador. Ai! Eu pensei logo que ele andava a aprender com os franceses! Porém, rematou logo de seguida a pedir desculpas pelo mal entendido. Era só uma "inocente frase" sem outras intenções. Só queria dizer que o Queiroz estava a ser entrevistado na sala de imprensa e era com ele que os jornalistas deviam estar a falar. É óbvio! Coitadinho. Estava frustrado.
Dois remates seguidos, e nem um único golo, poderíamos nós pensar! Com uma boca destas, e reparem que não me dou ao trabalho de mencionar a sua inteligência, não seria de esperar outra coisa... Mas não! Estamos todos errados mais uma vez! Parece que o rapazito andou a golear, sim senhor! Mas noutra baliza! O rapazinho é pai! Enquanto andava a tentar golear no futebol, só pensava na criaturazinha que tinha acabado de nascer lá para as Américas, segundo dizem! Cristiano, Cristiano... Espero que o teu miudito tenha melhores professores do que tu! E larga o quetechape. Estás é a precisar de um bom laxante, filho!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

P.S.: Com isto tudo, não admira que a menina Paris Hilton, uma loira burra daquelas que parecem saídas de uma cadeia de montagem, tenha sido presa por andar a fumar aquelas ervas que os hippies fumavam depois do Sr. Marcelo Caetano ter sido despedido do governo. A rapariga devia estar a pensar «Que horror! Se calhar sou eu a mãe!». Podem não se lembrar, mas houve molho entre esses dois manjericos há um ano atrás. Olha, filha, não te preocupes. Com umas ancas como as tuas, nunca hás-de ter filhos. Uma mulher, para parir, tem que ter ancas largas para a criança pasar! E se fosses tu a mãe, já te tinhas apercebido, quando aparecesse nas revistas cor-de-rosa! Descansa em paz, na paz do Senhor!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Faz as pazes com Deus, ó Saramago!

Meus queridos,
Eu sou uma pessoa que nos funerais tem sempre as mãos pousadas sobre o regaço e não pronuncia uma única palavra. Se alguém me começa a falar bem do morto, o mais certo é eu interromper «Descansa. Podes parar com a graxa. Está morto, já não te ouve.» e, se ouço alguém a chorar, eu sou aquela pessoa que diz «Shiu! O senhor prior está a falar!».
Eu não sou uma pessoa que chore nos funerais, ou que fale irritantemente sobre o quão adorável era o morto quando estava vivo. Que horror! Era o que mais me faltava! Eu não acredito em pessoas adoráveis. Ninguém o é! Todos têm nódoas na camisa! Eu sou aquela senhora, a Dona Antonieta, que passado algum tempo, quando já ninguém fala no morto e já toda a gente o esqueceu, começa a contar histórias sobre ele. Era o que me faltava, estar a engraxar um morto! Se não se fez enquanto estava vivo, já não se faz! Por isso, quando o Zé Saramago morreu, remeti-me ao meu silêncio e esperei que se esquecessem dele. Já passou uma semana, e agora, que já pararam de engraxar o morto e as atenções se voltaram todas para o futebol, lá nas Áfricas, posso pronunciar-me.
Quero lá eu saber que ele tenha ganho um prémio em terras de bárbaros nórdicos, ou que tenha escrito uma catrefada de livros. O Zé era um homem horrível que me atormentou desde pequenina. A minha aldeia, Casal da Desgraça, fica apenas a alguns quilómetros da Azinhaga, onde ele nasceu. Ele era mais lisboeta que ribatejano. Quando ele voltava à Azinhaga, toda a gente em Casal da Desgraça dizia que aquele rapaz era lisboeta. Nós conhecemo-nos quando eu tinha os meus seis aninhos e ele... sei lá eu... era mais velho... já tinha barba... Eu estava a caminho da capelinha de Nossa Senhora das Dores - que agora já foi demolida porque o telhado estava podre - quando o rapaz se cruza comigo e chocamos. Pediu-me desculpa, eu também, e conforme ele se ia embora eu despedi-me com um «Vai com Deus!», ao que ele me responde «Deus não existe!». Chorei tanto, Meu deus! Chorei tanto! Passei o terço todo a chorar. Rezei o terço três vezes a ver se me esquecia do que ele me tinha dito, mas não conseguia. Levei dois dias a recuperar.
Depois disso, estive muito tempo sem o ver, até me casar com o meu Arnaldo, Deus o tenha em paz, e nos mudarmos para Lisboa. Ora, o meu Arnaldo era bom amigo do Zé Saramago e eu, na altura, já nem me lembrava dele, até que um dia, ao jantar, convidei a querida Ilda, a mulher dele, a quem eu emprestei uma tesoura de poda que ela nunca mais me devolveu, a ir à missa no dia seguinte, e a levar a pequenina Violante também, para conhecer as outras senhoras da vizinhança e as criancinhas da catequese, ao que ele interrompeu, dizendo «Não acredito no tempo que as pessoas perdem a rezar a um Deus que não existe!» Lembrei-me logo dele! Que escândalo! Até parti um prato!
Nessa noite, ele mostrou ao meu Arnaldo um manuscrito de um livro chamado "A Viuva", que ele próprio tinha escrito... Queria publicá-lo em breve! Um dia, sem que o meu Arnaldo soubesse, li o manuscrito e fiquei horrorizada. Telefonei para a editora e disse-lhes que era um livro horrível e mais valia ser chamado "Terra do Pecado"! Tramei-o bem tramado. O livro foi publicado na mesma, mas alteraram-lhe o título. Depois disso, ainda escreveu um livro chamado "Claraboia" e eu decidi repetir a brincadeira. Estava à espera que o contrariassem novamente e também mudassem o título do livro para "Pouca Vergonha". Porém, em vez disso, não o publicaram...
Só dezanove anos depois é que ele voltou a escrever, quando o meu Arnaldo se descuidou e lhe disse que tinha sido por minha culpa que o "Claraboia" não tinha sido publicado... O Zé riu-se que nem um perdido e parece que ficou logo inspirado. Escreveu uns "Poemas Possíveis" e pediu-me para os ler. «Pára de escrever, Zé Saramago! Que o diabo te carregue! Pára de me massacrar, que o único livro que uma senhora como eu devia ler é a bíblia!» Mas ele insistiu. Ralhei tanto com ele que a besta do homem ficou a adorar-me. A partir daí passou sempre a mandar-me os seus manuscritos. Até parecia excitar-se por eu me enfurecer tanto.
Decidi mudar de técnica. Depois da "História do Cerco de Lisboa", disse-lhe «Olha, Zé. O livro é assim-assim.» Ele franziu o sobrolho e estranhou a minha simpatia. «Por que é que não tentas fazer uma daquelas histórias bonitas, como as do Livro Sagrado? Também têm pessoas sem moral e coisas esquisitas a acontecer...» Ele pareceu convencido e pouco depois mostrou-me aquela abominação, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"! Como é que ele foi capaz?! Que horror! E o pior é que me sinto culpada por ele ter publicado o livro. Se eu tivesse sido simpática em vez de o ameaçar com a faca de cortar o pão, ele teria guardado o livro na gaveta. Por que é que eu o tentei matar com a faca de cortar o pão?! Sinto-me culpada até aos dias de hoje...
De qualquer forma, pior para ele, que se mudou para a Espanha! Mas nem mesmo lá longe deixou de me enviar aqueles manuscritos demoníacos. Bastaria que eu não os lesse e ele pararia de me atormentar! E eu ser capaz? Não era! De cada vez que recebia um manuscrito dele, eu ficava com ele dois dias sobre a mesa, tentando ganhar coragem para o atirar à fogueira. E, então, eu pensava «Calma, Antonieta! Se fazes isso, ele pensa que leste o livro e o detestaste mais do que aos outros!» E lá ia eu ler aquelas barbaridades sob a luz do candeeiro, para depois lhe escrever uma carta com todos os impropérios de que me conseguia lembrar!
Por cada vez que li um livro dele, voltei a ler a bíblia toda do génesis ao apocalipse, como que a pedir perdão a Deus Nosso Senhor. Finalmente, depois de ter cegado a humanidade inteira e de ter transformado a morte numa mulher, decidiu chamar filho da puta a Deus e dessa vez enfureci-me de tal forma que queimei mesmo o manuscrito e enviei-lhe as cinzas por correio. E não é que o velho rezingão também publicou aquele absurdo?
Enfim, agora ele morreu. Entretanto, já li a Bíblia outra vez e tenho a sensação de estar à espera que qualquer dia me apareça outro manuscrito cá em casa... Ouvi dizer que aquele rapazinho que me cumprimenta todos os dias quando vai para a faculdade aqui ao lado gosta de escrever... Talvez, um dia, me deixe ler um dos seus manuscritos...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dona Antonieta está de volta!


Meus queridos! Tantas saudades que eu tive de partilhar os meus dias convosco... Depois dos pequenos incidentes com a X-Box de há uns meses atrás, os meus filhos pensaram «A mamã está a ficar muito solitária e isso já não é bom na idade dela. Devíamos enfiá-la num LAR, COM OUTROS VELHINHOS CAQUÉTICOS COMO ELA!» A mim, Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita! Como é que foram capazes? Eu que sempre fiz a minha vida sem ajuda de ninguém, sempre tive a minha casa e lutei pelas minhas coisas! Até os meus bibelôs! A quantidade de vezes que lutei com aquela vaca da Josefa (que ainda não voltou do Brasil) pelos bibelôs que agora enfeitam os meus móveis! Consegui vencê-la sempre! Ela nunca comprou um bibelô que eu quisesse comprar!

Continuando... Eles levaram-me para um lar (supostamente) de luxo, com muitas regalias e muitos velhinhos com quem eu poderia conversar, mas aquilo era uma treta pegada! A maioria dos velhinhos nem falavam! Babavam-se! E aquilo não tinha luxo nenhum, se é que chamam luxo a eu ter o meu próprio quarto e uma casa de banho privada! A isso eu não chamo luxo! Chamo "o mínimo aceitável" para uma senhora como eu! Não vivi estes anos todos para me atirarem areia para os olhos!

Seja como for, lá conhecia a Julieta, uma grande coscuvilheira, mas boa amiga. Podíamos passar horas a conversar. E como o lar tinha muita gente, não era difícil arranjarmos motivo de conversa. Havia sempre os podres de alguém, os boatos deste e daquele... e como ela já lá estava há dois anos, conhecia também muitos outros que também por lá tinham passado, mas que já não se encontravam entre nós. Infelizmente, descobri mais tarde que metade das histórias eram falsas e que da mesma forma que ela falava comigo sobre os outros, falava com os outros sobre mim. Claro que ela não se ficou a rir, quando passaram no noticiário que se tinham casado duas lésbicas em Portugal (o Demo anda ocupado...) e eu me levantei-me e disse, diante de todos, alto e bom som, que uma delas era filha da Julieta!

Perdi uma amiga e ganhei muitas mais. É como na escola. Assim que mostrei que com a Antonieta não se brinca, tornei-me popular. Até tive os meus interesses amorosos. O Manuel Fonseca era muito galante, mas estava tão gordo, valha-me Deus... E o Alberto Silva também era um senhor com H grande (e não só, pelo que as enfermeiras davam a entender com os seus borborinhos, de cada vez que o ajudavam a tomar banho), mas era careca e faltavam-lhe dois dentes na dentadura... O Norberto também era encantador e sabedor na arte do engate, mas era casado e a mulher dele também habitava aquele lar. Lá por a mulher dele estar em coma, o casamento não deixa de ser sagrado...

Todavia, o meu Zé, o meu filho mais velho, foi despedido, e era ele que pagava a minha estadia neste "lar de luxo". Acontece que não é o meu único "filho despedido" e assim já não havia dinheiro para a mamã estar "internada" naquela espécie de hospício infernal onde me obrigavam a comer canja dia-sim-dia-não e a comer gelatina de pêssego quando o que eu queria era a de ananás.

Estou de volta, meus queridos! Estou em casa. O gato Matias foi quem sentiu mais a minha falta. Tão magrinho que ele está, depois de ter enchido a barriga a todas as gatas da vizinhança. Depois a dona é que tem de ouvir a Gertrudes a gritar porque a gatinha dela está prenha outra vez. Mas não faz mal. Agora, a Antonieta está de volta!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Exorcismo - e o fantasma da X-Box

Meus Queridos,
Perdoem-me a minha ausência. Sinto-me tão perdida. Já não sei o que faça da minha vida. Acho que estou a morrer. Como Sylvia Plath dizia, todos nós começamos a morrer a partir do momento em que nascemos, mas desta vez sei que estou mais perto de estar morta do que no dia em que nasci. Assombrada durante a noite e possuída durante o dia, passei quase um mês sem dormir. Sinto-me seca por dentro, como um pão que vai ao microondas durante demasiado tempo.
A minha artrite dá-me cabo dos dedos, mas nem por isso conseguia largar a consola. Inicialmente, comprei aquela porcaria para o gato Matias, porque ele estava de trombas e já não gostava de mim. Contudo, como o Matias não jogava, comecei eu a dar uso à coisa. Depois, apareceram aqueles suspiros e gemidos no meu quarto e tirei a fotografia àquele jovem espectro que me assombrava com aqueles olhos de quem me queria possuir. Pelo aspecto, devia ser um jovem fantasma com uns 18 anos, mais coisa, menos coisa. Agora, não percebo por que decidiu assombrar-me. E acho que ele me possuiu, de facto, porque os jovens, mesmo fantasmas, adoram jogar e eu não largava a consola nem por nada e os meus dedos continuam todos inflamados.

Eu nem sequer gosto de futebol e não parava de jogar Pro-Evolution Soccer 2010! E aqueles monstros aterrorizantes do Halo que me estavam sempre a matar e me provocavam aqueles pesadelos horripilantes! Estive quase um mês sem fazer as lides da casa, sem comer, sem me lavar, nada! As minhas vizinhas pensavam que eu estava a viver em casa dos meus filhos, porque nunca me viam sair de casa. Como é que pode ser? Estive quase um mês sem saber nada da vizinhança! Todas as conversas, brigas, coscuvilhices e segredinhos que eu perdi! À noite, quando tentava dormir qualquer coisa, lá aparecia o safardana do fantasma para me suspirar ao ouvido e me acordar. «Vai jogar, Antonieta! Ainda não chegaste ao último nível!» E eu limitava-me a obedecer, como se o meu próprio espírito já não habitasse mais em mim. O gato Matias já nem me reconhecia. Rugia de cada vez que me via!

Só quando a Celeste e o Senhor Padre vieram a minha casa, porque há já três semanas que eu não ia à missa, é que me livrei do fantasma que me tomava o corpo. Os rostos deles foram tomados de assombro quando mergulharam na obscuridade da minha sala e me viram.

- Dona Antonieta, vocemessê está num estado miserável. Largue a televisão. Precisa de se lavar, de comer...

- Estás a chamar-me porca, padre? Vai mas é para o Inferno chupar pichas com a tua mãe!

A Celeste até desmaiou! Nunca da minha boca tinham saído tais impropérios! Eu gritava e ralhava com eles até que o padre arrastou a Celeste dali para fora e foi chamar o bispo. Entretanto, depois de recuperar os sentidos, a Celeste foi pedir ajuda à pobre Lucinda, a qual, graças às suas cataratas, consegue ver o "outro mundo" com outros olhos.

Quando entraram em casa, plantaram velas por todo o lado e arrancaram-me o comando das mãos!

- Não!!! - Gritei eu, com uma voz que não era a minha. - Não gravei o último nível! Vou perder o jogo!

- O Poder de Deus Compele-te! O Poder de Deus Compele-te!

- Não me chateiem, seus bastardos, filhos de uma grande meretriz!

Foi então que amarraram ao sofá e atiraram a minha X-Box 360 para a lareira, desaparecendo por entre as chamas e o fumo negro do Inferno que encheu aquela casa. E enquanto exorcitavam aquele espírito maligno de dentro de mim, eu gritava e grunhia e cuspia e chamei-lhes nomes que nunca tinha ouvido na minha vida! A partir daí, não me lembro de mais nada. Parece que destrui a minha mesa de vidro da sala, uma moldura da minha querida Olívia, um retrato de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz e até mesmo o tampo da sanita! Depois, quando finalmente conseguiram que o demónio me libertasse, vomitei no lavatório até as tripas me arderem!

Agora, estou melhor. O Senhor Padre pediu às senhoras da Santa Casa da Misericórdia para me ajudarem durante uns dias. Elas podiam lavar-me a casa, trazer-me refeições, dar-me banho... Mas eu mandei-as embora, logo no primeiro dia! Trouxeram-me canja e queriam que eu me despisse à frente delas para me lavarem. Isso eu consigo fazer sozinha! Se me queriam ajudar, levassem-me para as termas e servissem-me caviar!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Matias, a X-Box e o Fantasma...

Meus queridos, já não sei o que fazer. O Matias zangou-se comigo. Eu devia tê-lo levado comigo para o Réveillon. Porém, em vez disso, pensei que ele se ia divertir mais com os amigos e soltei-o. Claro que, como só voltei passados alguns dias, o gato já cospia fogo pelas ventas e estava incrivelmente revoltado comigo. Nunca mais me falou. Dei-lhe pasta de atum, os camarões que roubei à minha nora, até lhe comprei fígado, que o bichano tanto adora. E nada! Nada o fez voltar a ser como era!
Assim, um dia desta semana, a Celeste disse-me que tinha comprado uma daquelas consolas barulhentas para os netos. Aquelas pestes são horríveis! Horríveis! Só vão ter com a avó pelos anos e pelo Natal! Parecem ter saído da minha família... Mas ela continuou a história, e ao que parece ela ofereceu-lhes essa coisa ruidosa para eles ficarem especados à frente da televisão como se fossem uns tontinhos, mas na condição de esta ficar lá em casa dela. A partir daí, todos os dias, depois da escola, as pestinhas vão para casa da avó. Ao início nem lhe ligavam, mas como ela lhes foi preparando uns lanches e uns bolinhos (aquela mulher faz uns bolos quase melhores que os meus... quase!) agora a avó é quase a melhor amiga deles.
Decidi, então, usar a mesma estratégia. Comprei uma consola para o Matias! Mas até agora parece não estar a surtir efeito. Já comecei a mexer naquilo, a ver se lhe faço inveja, mas sou muito má com estas coisas, e o gato continua a ignorar-me.
Entretanto, como o Matias já não dorme comigo e não adormeço com o ronronar dele aos meus ouvidos, comecei a ouvir os ruídos mais estranhos durante a noite. São de arrepiar. Começava por sentir uma presença, apenas, mas pensei que fosse tudo da minha imaginação. Nos dias seguintes, foram os afrontamentos! Credo! Tanto calor! Insuportável. Transpirava-me toda, até tinha que despir a combinação que ficava toda ensopada em suor. Finalmente, de há uma semana para cá, vieram os suspiros. Meu Deus! Se fosse uma galinha, tinha largado um ovo no preciso momento em que ouvi aquilo pela primeira vez! Que susto! Nossa Senhora dos Aflitos nos proteja a todos de uma presença que suspire daquela maneira no nosso quarto!
Decidi contar essa história à minha Olívia, ante-ontem, quando ela veio cá surripiar-me o almoço, porque parece que se zangou com a fufa Diana, com quem já andava a almoçar todos os dias... Valha-nos Deus! Pode ser que a coisa lhe passe e o Demo abandone aquele corpo!
Continuando, a minha neta, toda miserável e chorosa por causa da amiga traidora (ela não mo disse, mas eu sei que foi por isso. Aquelas lágrimas não enganam ninguém. Parece uma porquinha toda inchada e ranhosa quando está desgostosa de amores), disse-me que a melhor maneira de ver se havia alguém a assombrar-me o quarto era dar-me uma máquina fotográfica, para eu apanhar a Besta em flagrante quando começasse a perturbar-me o sono! Claro! O que ela estava à espera era que eu fotografasse a parede ou o tecto e pronto - a avózinha anda a ouvir coisas. Vamos interná-la e fazer as partilhas.
Mas não! Adormeci com a máquina fotográfica nas mãos e quando ouvi aquele sussurro outra vez, saquei do aparelho e Zás! Apanhei a criatura demoníaca mesmo a olhar para mim. Meu Deus! Os arrepios que me dá! Tenho uma aparição nua no meu quarto a assombrar-me os sonhos! Nossa Senhora dos Aflitos me proteja, que já não sei aguento mais destes afrontamentos...

Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Festas! O meu Réveillon 2010!

Como já vos disse na semana passada, as minhas últimas semanas de 2009 foram muito desgastantes. Ainda estou a recuperar. Nem sei como é que me aguentei de pé. Estive quase para pedir uma bengala pelo Natal, mas no meu íntimo desejava ainda mais que me dessem uma camisa de seda igual à da Celeste, pelo que me deixei ficar calada. Erro meu! Deram-me naprons franceses, toalhas de banho de linho egípcio, jarras de cristal para as flores dos meus canteiros! E tudo o que eu queria era uma camisa de seda como a da Celeste! Até parece que é muito difícil comprar prendas para senhoras da minha idade...
Depois do Natal, o meu querido neto Ricardo (o único que eu não consegui casar porque foi enfeitiçado por uma bruxa africana, com quem se casou e teve dois meninos mestiços, para tão grande desgosto da minha pessoa) convidou-me a ir passar o resto da semana seguinte para casa dele, para que aqueles meus bisnetos escurinhos ficassem a conhecer melhor a bisavó.
Uma semana infernal! As criaturinhas, a Anita e o Leo, de quatro e sete anos, estavam sempre a brincar aos soldados, com armas de plástico e espadas! Depois, pediam-me para eu brincar com eles. E eu até brincava, ria quase até chorar de tanto me divertir, mas era só porque eles me pediam! Tratavam-me por Avó Piriquita e adoravam os bolos que eu lhes fazia todos os dias. Fiquei a conhecer melhor a bruxeza, também, que se chama Naima-Qualquer-Coisa-Ding-Dong, que nunca queria que eu me cansasse a tentar arrumar-lhe a casa. Ela tratava de tudo! Trabalhava até às quatro da tarde e quando chegava a casa, arrumava, varria, lavava... Tudo, tudo, tudo, em menos de duas horas. Depois, acalmava os filhotes, metia-os a ler (e deviam ver a mais pequenina que ainda nem anda na escola e já lê tão bem), conversava comigo durante meia-hora e ia para a cozinha fazer o jantar para nós todos. Impressionante! Eu ainda tentava ensiná-la a cozinhar à minha maneira, mas ela enviava-me para a minha poltrona na sala e dizia que eu era a convidada e devia descansar... Não admira que antigamente fossem tão bons escravos! A mulher trabalha que se desalma! O meu neto Ricardo, se calhar, até nem fez muito mal em casar-se com aquela alma das Áfricas... Apesar de tudo, era uma mulher quase perfeita. Mas eu tenho a certeza que lhe conseguia arranjar uma mulher melhor!
Finalmente, chegou o fim do ano e eu já tremia que nem varas verdes, com medo do que podia acontecer à meia-noite, com aquele fogo de artifício e tudo... A família reuniu-se toda, outra vez, trouxeram champagne, doces, marisco (outra vez a minha nora a tentar matar-me, por causa da minha alergia ao marisco), lombo de porco e tantas, tantas iguarias, Meu Deus! Olhasse fosse para que lado fosse, ou via pessoas, ou via comida! Eram tantas gargalhadas, gritos, gente a falar alto e música aos berros! Nunca vi nada assim! O meu Arnaldo podia ter gostado de uma coisa destas, se ainda estivesse vivo, Deus tenha a sua alma em repouso. Contudo, para mim aquilo era uma barulheira que me punha a cabeça em frangalhos! E de repente...
PUM! PUM!
Começaram a rebentar bombas na rua, assim, do nada! Toda a gente a gritar e a correr para a rua e as criancinhas em pânico eram as que fugiam mais depressa! Tínhamos acabado de entrar em 2010 e dos meus olhos escorriam lágrimas de pesar pelas nossas vidas que tinham chegado ao fim! Não podia acreditar que era assim que ia ser a minha morte! E então pensei: «Antonieta Piriquita, acalma-te. Pelo menos assim não ficas sozinha no Céu, à espera do resto da família. Vão todos juntos, de uma só vez!» E comecei logo a sorrir.
Quando me levaram lá para fora, toda a gente bebia champanhe e abraçava-se e depois davam-me beijinhos a dizer: «Coitadinha da avó, está a chorar de alegria!» E era verdade, estava. Mas como nunca mais morriamos, olhei para o céu, para ver se as bombas ainda estavam muito longe, e foi aí que me apercebi que era só o fogo de artifício. Aí, fiquei brava! Os meus filhos tiveram que me agarrar! Eu queria matar os filhos da mãe que estavam a lançar os foguetes! Quase me tinham matado de susto! Eu tinha sido enganada!
Depois, sentaram-me numa cadeira, deram-me uns copos de champanhe para eu me acalmar e passas para eu não beber aquilo sem nada no bucho e a noite acabou por se tornar maravilhosa. Ficou tudo mais calmo e lento e eu fiquei toda relachada e descontraída. Fazia muito frio, na rua, mas eu até que estava cheia de calor e meti-me a dançar com os meus bisnetos... 2009 foi horrível e 2010 começou ainda pior. Todavia, Deus escreve torto por linhas direitas, e tudo se compôs com uns copos de champanhe. Foi uma maravilha e este ano adivinha-se cheio de surpresas.
Uma vez mais, Feliz 2010, meus queridos amigos que eu não conheço. Que Nosso Senhor vos guarde na sua infinita... Hip!... Qualquer coisa!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Festas! O meu dia de Natal...


Meus Queridos! Devem ser as únicas pessoas que me adoram! Desculpem-me ter estado afastada de vós durante tanto tempo! Estas festas todas são demais para uma senhora de idade como eu, que sofro tanto da minha saúde. Todavia, primeiro que tudo: Um Glorioso Ano Novo para todos, na paz do Senhor, com muita luz e com Jesus nos corações.

Nem vão acreditar nas minhas desventuras, ao longo das últimas semanas. Depois de todas aquelas tempestades, que quase me fizeram pensar que 2012 tinha chegado e ia conhecer o Senhor, tive dois dias para limpar a casa, completamente sozinha, com a fraca ajuda da minha Olívia, e deixar tudo pronto para o Natal, porque os meus filhos queriam que a família se juntasse toda lá para celebrar as festas e a casa da mamã é maior que as deles. Tantas limpezas deixaram-me os bafos de fora. A Olívia varreu-me o chão todo e lavou-o e eu tinha que ir sempre atrás dela, porque a rapariga é muito pouco dotada para dona-de-casa e ficava tudo sujo na mesma. Nem as minhas estatuetas de Nossa Senhora dos Aflitos ela sabia limpar bem e arrumar no sítio certo dos móveis. E os cortinados que ela queria que eu pendurasse na janela da cozinha! Que horror! Tive que esperar até a rapariga sair de casa para os trocar. Estava sempre a mandar-me sentar, que não queria que eu me cansasse e que ela era muito bem capaz de tomar conta do recado e tratar da minha casa sozinha. Mas se não fosse eu, aquilo nunca tinha ficado pronto para o Natal. O que ela não queria era que eu a estivesse a tentar ensinar a cuidar da casa, como uma senhora deve ser. Eu, que sou uma avó tão preocupada, calhou-me uma neta que não sabe dar valor ao que eu lhe tento ensinar todos os dias. Porém, ainda não disse tudo!

Mal consegui dormir na noite de 24 para 25. Depois daquela Consoada que a minha nora preparou, tão desleixada... Se há coisa de que eu me arrependo é de ter deixado o meu filho mais velho casar-se com aquela mulher. É bondosa e muito fértil... Mas não sabe cozinhar! Parece impossível! O bacalhau era seco e não tinha sabor. As batatas estavam cruas e serviu-nos marisco para as entradas! Marisco! Queria matar-me! Até parece que não sabia que eu era alérgica ao marisco! Gritava comigo para eu não comer os camarões e punha-me um pratinho com queijinhos ao colo para eu comer. E de cada vez que eu me enganava no prato e pegava num camarãozinho, lá vinha ela aos gritos, a dizer que eu não os podia comer! Se eu não os podia comer, por que é que ela os tinha comprado para a Consoada? Era para me matar! Só podia ser por isso...

Depois de me ter enchido de nervos, empanturrei-me com sonhos e rabanadas e tive pesadelos toda a madrugada. Quando, finalmente consegui adormecer, acordei com os gritos dos meus trezentos bisnetos. Tanta criançada, Credo! Nem sei o nome deles! Chamo-lhes meninos queridos e eles pensam que gosto deles, mas mal os conheço, porque os pais nunca me vêm visitar. Só na altura de lhes comprar prendas. Contudo, como eu nunca sei quando é que as criaturinhas fazem anos, tenho uma caixa cheia de peluches por baixo da cama para oferecer quando eles me visitam. Seja como for, eles estavam a gritar por causa do Pai Natal. Ele tinha-lhes levado presentes durante a noite!

Ai, se eu detesto o São Nicolau! Esse homem não era santo nenhum! Roubou o dia de aniversário do menino Jesus, e só se fala no velho de barbas que dá presentes! Na minha terra, o velho de barbas que dava presentes era o Sr. Agostino, que tinha muito más intenções e teve que ser imasculado para deixar as crianças em paz. Levantei-me da cama em combinação e saí para a sala para lhes ensinar que era o dia de Jesus e não o do Pai Natal, mas as crianças começaram a gritar assustadíssimas quando olharam para mim e as minhas filhas levaram-me novamente para dentro do quarto para me vestirem e porem-me decente para as festas.

Tivemos que comer um perú recheado que tinha um molho que a minha nora inventou. Toda a gente gabou aquele molho, mas cá para mim aquilo era só aguardente para nos embebedar a todos. E doces, todo o santo dia! E cházinhos! E o berreiro daquelas criaturas pequenas com os seus brinquedos barulhentos! E visitas! Sempre a aparecer gente que dizia que me conhecia, mas que eu nunca tinha visto na vida. Claro que fui simpática para toda a gente e disse sempre «Ah, sim! Eu lembro-me de ti quando eras pequeno... És aquele que me vinha roubar as laranjas do meu quintal!» ou então «Ah, sim! Eu lembro-me de ti quando eras pequena... És aquela que corria em cuecas no recreio da escola!» Toda a gente se ria muito e deixavam-me em paz.

Entretanto, como estava cheia de comida até ao pescoço e estava cansada de tanta confusão, decidi que estava a precisar de dormir uma sesta e adormeci no sofá... Até que fui acordada pela voz da minha Olívia a dizer:

- Já viram a boca dela? A velha morreu ou está a dormir?

Teve muita sorte, por estarmos no Natal. Estive quase para a tirar do meu testamento. Contudo, em vez disso, limitei-me a murmurar, ainda de olhos fechados:

- Posso parecer uma morta a dormir, mas pelo menos a minha pachacha funciona!

Posso ter deixado a criatura a chorar, e os meus filhos a ralharem comigo, e os meus bisnetos a perguntarem aos pais e à Olívia o que era uma pachacha, mas acabei o Natal a rir-me que nem uma perdida.

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sweet Dreams or a Beautiful Nightmare



Esta tarde, enquanto dormia a sesta, tive o mais estranho sonho e fui imediatamente contá-lo à fufa Diana, que tem sempre tão bons conselhos e ideias interessantes. Esta manhã, estive também a falar com ela sobre a história que a minha Olívia me tinha contado, e a rapariga conseguiu acalmar-me. Tem mais juízo que a minha querida neta. Acontece que a minha Olívia ficou confusa. A fufa Diana nunca se casaria com ela. Foi um alívio para mim que vocês nem podem imaginar. É verdade que depois eu é que vou ter que limpar o ranho e as lágrimas da cara da minha neta, mas não importa, porque já tenho um novo pretendente para lhe apresentar. Não hei-de morrer sem ver a minha querida Olívia casada com um bom partido! Nem que seja a última coisa que eu faça!


Então a fufa Diana esteve a explicar-me tudo sobre o significados dos sonhos. Falou-me de um tal de Freud e o que ele percebia do assunto, mas eu fiquei a perceber tudo menos o sonho que tive.


Segundo Freud, todos possuímos um lado oculto, carnal, em que somos movidos por impulsos animalescos. Faz-me lembrar um vizinho meu que se afundou no lado negro no dia em que começou a ladrar. No meu sonho, eu estava a tomar banho com água azul, sais de banho, velas com essência de morango e óleos essenciais de magnólia. Mas tirando isso, até cheirava a essência floral de banana-manga.
O jantar, nesse sonho, foi bacalhau com broa e sementes de jindungo… as batatas estavam mal cozidas e a máquina de lavar secou a roupa a frio. O ferro de engomar não passou e eu fiquei a pé (porque o condutor do ferro de engomar é um cabrão e a mulher pôs-lhe os cornos).
Como o sol ainda não tinha nascido, eu já estava atrasada para a primeira aula, de tal modo que decidi ir a nado. Ao chegar à outra margem rebolei na lama, pois estava na margem errada e já tinha passado meia hora. Ao rebolar, apercebi-me de uma cara conhecida, olhando para mim com dois olhos enormes e escuros e um sorriso muito aberto. Era a caveira da minha falecida avó que decidira emergir do meio da terra do cemitério local. Dei-lhe um beijinho na testa e passando pelo portão do cemitério choquei contra um carro funerário. Eu fiquei bem, mas tanto quanto fiquei a saber, uma das pessoas que lá ia dentro ficou morta e o carro teve que ir para o hospital. Com uma unha do pé encravada, passei pelo dermatologista para que ele me desse uma mãozinha. Deu-me duas e fiquei a saber que era maneta. Como a unha continuava a doer agradavelmente e dela nascia um malmequer, pedi ao dermatologista que desse uma olhadela. Ele deu. Porém a força foi tanta que da minha unha não só nascia um malmequer como também um olho do diabo (como o dermatologista era vesgo pediu ao seu piriquito, o Diabo, que desse ele mesmo a olhadela e dissesse o que achava do caso).
- É um caso bicudo, senhor doutor. – Respondeu o Diabo no momento em que ficou sem o olho.
Pois bem, a partir daí o Diabo passou a ser chamado Camões – o poeta zarolho.


Foi então que acordei! Ainda não percebi como é que o senhor Freud é capaz de explicar isto...


Se alguém tiver uma opinião, é favor partilhar, porque começo a ficar aflita. Entretanto, vou aquecer o meu jantar. Ainda sobraram alguns dos cogumelos que a minha Olívia trazia na malinha que eu lhe comprei.


Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 3ª Parte


Um tremor de terra na semana passada? Uma tempestade esta noite? Ainda não acreditam em mim?!
Que não dêem importância aos grandes acontecimentos, já é normal. Não me admiro. Estão sempre a acontecer e são tão falados na televisão que as pessoas já os ignoram. Morreram mil pessoas quando o vulcão explodiu, ou morreram outras tantas com o outro cataclismo... Desde que a nossa casa esteja inteira e ninguém entorne o nosso café, está tudo bem. Suspiramos, murmuramos "pobrezinhos" e coçamos as costas. O que me espanta é que as pessoas não reparem nas pequenas coisas!
Vamos por partes:
Na semana passada, o meu gato Matias estava irrequieto. Mas não era um irrequieto normal. Estava possesso. Abria a boca e rosnava! Depois, atirava-se às cortinas e fugia de mim enquanto alagava todos os trainecos que eu tinha nos móveis! «Anda cá, gato vadio!» Mas ele não me dava ouvidos. Nessa noite - Tumba! Terramoto! E parecia que o mundo estava a cair. Era tal e qual como se viu naquele filme! Não me levantei da cama sem antes ligar a luz do meu candeeiro. Se se tivesse aberto uma fenda por baixo da minha cama, podia cair lá para dentro. E Deus seja minha testemunha: Não hei-de ir para o Inferno!

A noite passada, foi a minha neta Olívia a dizer-me que se queria casar com a fufa Diana! Eu disse-lhe «Anda cá, menina vadia!» Mas ela não me deu ouvidos! Só gritava que agora já se podiam casar e que não estava a fazer nada ilegal, enquanto eu corria atrás dela com uma vassoura! Claro que lhe disse «Pode não ser ilegal para o senhor Sócrates, mas é ilegal para o Senhor lá de cima!» Foi então que os meus comprimidos para dormir começaram a fazer efeito e tombei no sofá! O raio da miúda ainda teve a decência de me desligar as luzes e a televisão, que a electricidade agora está cara. Mas tapou-me com um cobertor até à cabeça, como se eu estivesse morta! Se calhar, foi o que ela pensou. «Olha, matei a velha de susto com esta brincadeira horrorosa!» Ah, pois... Deve ter sido. Porque isto só pode ter sido brincadeira!
Continuando, quando acordei já eram umas quatro da madrugada e o vendaval era tal que quando abri a porta o gato Matias quase levantou voo! Bastou abrir uma frincha da porta para entrar terra, folhas, ramos de árvores, um caixote do lixo e o Sr. Abílio que também já voava.
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 2ª Parte

Uff... Já estou mais recomposta agora...
Como eu vos estava a contar, esta semana vi algo que só podia ser obra do diabo, pela janela do meu quarto.
Pela janela do meu quarto consigo ver o pátio da escola primária, onde aquelas pequenas criaturas a que toda a gente chama crianças brincam e gritam e acabam por chorar algumas vezes. Pois fiquei estarrecida quando vi um espectáculo inimaginável. Um dos miúdos, o Rodrigo, neto da Hortênsia, que tem muito mau feitio, estava sentado nos degraus da escola a observar um pombo. Observava o pombinho, com aqueles olhos redondos de atrasadinho que a avó também tem, com tanta atenção, que seria de esperar que até fosse boa pessoa. Levanta a sacola, tira de lá um pão com marmelada que a mãe deve ter comprado na mercearia do Sr. Alberto, que é muito boa e docinha cá dentro, começa a atirar bocadinhos de côdea ao bicho. O pombo louco a devorar os bocados de pão que voavam pelo ar, o miudinho a observá-lo calado e os colegas a correr e a saltar pelo recreio que nem cabrinhas montesas. Até aqui tudo bem.
Porém, o Rodriguinho farta-se e atira com o papo-seco inteiro ao pombo. Enjojado, o bicho ainda cambaleia algumas vezes, mas depressa se apercebe do banquete que lhe tinha caído em cima e começa a comê-lo. O Rodriguinho deve ter ficado desapontado e levantou-se. Pronto, vai brincar com os amigos, não é? Não! Pega numa pedra bem grande e atira-a ao pombo! Desta vez, o animal não se refez tão depressa. Já nem conseguia fugir do miúdo enquanto este levantava o pedregulho do chão e se voltava a aproximar. O bicho bem que abanava as asas e se contorcia todo, mas já era tarde de mais. Leva com a pedra mais duas vezes antes de parar de se debater. Depois, era ver o Rodriguinho a correr atrás de um colega, com a pedra sangrenta e com penas nas mãos. O colega bem que gritava "Não me toques com essa pedra", mas o Rodriguinho não desistiu enquanto não lhe sujou as calças e um jovem bastante elegante que passava pela rua apareceu para lhe puxar as orelhas.
O Demo andava à espreitei e encontrou ali um súbdito fresquinho! Ele anda à caça de seguidores e o Dia do Julgamento aproxima-se cada vez mais! Temos que ler os sinais! Eles andem aí!
Seja como for, eu adorei ver a forma como aquele jovem rapaz soube dar uns açoites bem valentes no rabo do Rodrigo. Aquele miúdo bem os merecia. O rapaz sabia como dar educação às crianças. "A força da mão é o melhor remédio para a má educação!" Eu sempre o disse. Há-de ser um bom pai, um dia. Tenho a certeza. E, pelo aspecto, julgo que deve ter tudo o que é preciso num bom homem de família, se é que me entendem... Mesmo sendo tão difícil de se enamorar por rapazes, estou certa de que até a minha neta Olívia era capaz de o achar encantador. Oh! acrescentem-lhe uns anos e hão-de ver o homem que ele há-de ser! Já é tão alto e robusto... Esperem para ver!
Acontece que eu não ando a ver o tempo passar, excepto quando não há nada para fazer, e decidi meter mãos à obra. Saí de casa, atravessei a rua e Pum! Estatelei-me no chão. O jovem encantado largou logo o Rodrigo da mão e veio em meu auxílio! Ajudou-me a levantar-me do chão, uma pobre velhinha em apuros. Estava tão desorientada (pensava ele) que nem me lembrava onde ficava a minha casa! Tão prestável que ele era! Levou-me para o emprego dele, onde eu poderia ficar em segurança até alguém me ir buscar. Chamava-se Jorge e trabalhava num cinema. Para quem não sabe, um cinema é como um teatro, onde as pessoas se sentam e vêm um filme numa televisão gigante. Fui algumas vezes, quando era jovem, com o meu Arnaldo. Mas depois os filmes ficaram a cores e perderam a piada. Já não tinham o mesmo encanto.
Continuando, quando lá chegámos, ele puxou uma cadeira para eu me sentar, muito cavalheiro, atrás do balcão, para eu poder fazer uma chamada para alguém da minha família. Telefonei para a minha Olívia, claro. Mas a porcalhona só foi capaz de ir buscar a avó meia hora depois. Tratei logo de os apresentar. Ainda passei as mãos pelo cabelo dela e tirei-lhe aquele maldito gorro que ela agora usa. Penteei-a com os dedos, enquanto ela tentava livrar-se de mim, mas acho que consegui que ela se parecesse com uma cidadã e o querido Jorge foi muito simpático com ela. Disse que não tinha muito tempo, porque as pessoas já estavam a entrar para as salas e ele tinha que ir projectar o filme, mas deixava-nos entrar de graça, se nós quiséssemos. Dei uma cotovelada na Olívia e ela aceitou. Até sorriu para ele. Finalmente, começou a aprender comigo!

Mas, sinceramente, preferia, agora que já vi o filme, que ela tivesse rejeitado a oferta. O filme era estrangeiro e tinha legendas que passavam demasiado depressa e era-me difícil lê-las. Depois havia uma gruta com água a ferver. A história estava um bocado confusa, mas pareceu-me que a água estava a ferver porque ó Inferno estava a chegar à terra. Depois, havia um homem barbudo que não sabia comer sem se babar todo e outro que estava divorciado e tinha levado os filhos a acampar. Finalmente, o diabo parece começar a conseguir abrir umas fendas no chão com terramotos. E que terramotos! Aquilo parecia o fim do mundo! Era gente a morrer em todo o lado e a cair de prédios e aviões a voar pelo meio! Meu Deus! Eu não parava de me contorcer! Estava quase a gritar! Mas como eles deviam ser boas pessoas, Deus até os salvou e eles conseguiram escapar. Mas depois... Ai, Credo! Quando o Diabo consegue escapar por uma montanha... Foi uma explosão de queimar os olhos! Um mar de chamas assustador! Uma nuvem de fumo e brasas a espalhar-se pela terra inteira! Eu não aguentei mais e comecei a gritar! Ainda por cima começaram a agarrar-me por todos os lados! Eram só mãos à minha volta e a puxarem-me! Eu gritava por ajuda! Uma ajuda que não chegava! «Oh, Meu Deus! Oh, Meu Deus! Salva-me! Oh, Meu Deus!» Eu meti as mãos nos olhos e só os abri quando aquelas mãos me largaram e eu já estava fora do cinema. A minha Olívia dizia-me para me acalmar, que era só um filme! Mas como é que podia ser um filme, se eu tinha acabado de ver aquilo tudo! O homem das barbas e aquela gente toda tinha morrido! E a nuvem demoníaca que saiu com a explosão de certeza que vinha a caminho! Eles podiam achar que não, mas aquilo tinha acontecido e de certeza que era o diabo a invadir o mundo! Eles não perceberam o filme! Aquilo era a sério e eles não perceberam!
O Jorge chamou um táxi e a Olívia levou-me até casa. Deu-me um chá e chamou a fufa Diana para me dar uns comprimidos que ela toma quando está nervosa, mas ainda não consegui parar de tremer! Nem durmo bem à noite! O mundo é grande, mas eu sei que ele vem aí. Foi por isso que Deus me deu o gato Matias! É o meu guardião. E é ele que vai decidir se eu fico cá em baixo a arder ou se vou para o Céu! E eu hei-de ir para o Céu, ou não me chamo Antonieta!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 1ª Parte



Ai, meus queridos, ainda não consegui parar de tremer. Esta semana, fui com a minha Olívia ao cinema. Porquê? Porque por muito simpática que seja a fufa Diana, não deixarei que a minha neta caia nos caminhos da luxúria e da perdição! Jamais!

Esta semana, sentei-me à janela do meu quarto, algo que eu faço algumas vezes, e vi algo que só pode ter sido obra do diabo! Pela minha janela consigo ver todo o meu bairro. Quando não vejo o que as minhas vizinhas andam a fazer, ou os trabalhadores da obras na igreja de Nossa Senhora dos Aflitos, que se matam a trabalhar, todo o santo dia a martelar e a transpirar e a mandar piropos de cima do telhado da igreja às raparigas que vão para a Universidade... É uma vergonha, mas... Oh! Aquilo é que são homens! Fortes que nem touros! Têm pêlos no peito!

Onde é que eu ia? Olhem, já nem sei. Vou fazer um chá. Mais logo acabo a história. Os afrontamentos dão cabo de mim... Meu Deus... A falta que o meu Arnaldo me faz...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"Bai Bai!"


Acabei agora de jantar com o gato Matias. Este gato malvado anda levado da breca e exige de mim o mesmo que uma pessoa adulta. Desde que começou a falar, não tem tento na língua. Só com refeições à mesa é que o bichano se acalma. Se não lhe faço as vontades, acusa-me logo com aqueles olhos demoníacos. Descobri que ele já não quer comida enlatada, porque lhe provoca gases. A sua comida preferida é fígado e rins com ervilhas e não suporta que lhe dê anchovas! Nunca mais caio no erro de lhe dar anchovas. Rugia como um monstro e trepava pelas paredes como se estivesse possuído. Mas não me vou queixar. Eu sei que o Senhor me está apenas a testar, e este gato há-de ser o meu julgador na hora final. E hei-de agradar o bicho, custe o que custar, ou não me chamo Antonieta Piriquita!

Ora, hoje foi um dia que nunca mais acabava, pelo que jantar com o Matias foi o menor dos meus males. E olhem que jantar com este animal não é a coisa mais fácil do mundo. Tudo começou com a dona Teresa a choramingar-se, esta manhã. Tinha eu acabado de lavar a loiça do meu pequeno almoço, quando a vejo pela janela da minha cozinha. Estava toda vermelha, a mulher! Nem sabe como fica nojenta com o ranho a sair-lhe das ventas, inchada que nem um tomate e aqueles olhos esbugalhados de mulher levada. A Dona Teresa nunca foi uma senhora muito normal. Ela deve ter nascido com os seus problemas, e acho que tudo piorou quando se apercebeu que era feia. Qualquer coisa que aconteça, fica logo endoidecida. Chamei-a para casa e meti logo uma chaleira no lume para lhe fazer um chá de tília que acalmasse aquele bicho, porque não estava para aturar aquela brutidão a manhã toda. Temos que a amansar primeiro.

Aqui na vizinhança, ninguém gosta muito de a aturar, mas como a dona Teresa sabe tudo sobre toda a gente, todas gostam de a ouvir falar. Como em terra de cegos, quem tem um olho é rei, ninguém quer ficar em desvantagem. Há que saber tudo sobre todos, para o caso de circularem boatos sobre nós. Acontece que a Teresa esta manhã estava a chorar porque o marido da Jertrudes lhe respondeu "Bai Bai" quando ela lhe deu os bons dias na padaria! Ela não podia crer que aquele homem tivesse o descaramento de a ofender com palavras estrangeiras à frente de toda a vizinhança. O marido da Jertrudes viveu na América durante os anos do Salazar. Há quem diga que fosse porque cá não tinha dinheiro, mas eu digo que foi porque ele era um desavergonhado que fornicava com a moça mais nova da dona Custódia, que era muito boa senhora e não tinha culpa das filhas degenerarem, e teve que fugir para não ter que se casar com aquela porcalhona desavergonhada, que segundo dizem se foi prostituir numa ilhota grega e vendeu os filhos a troco de pão.

Assim, desde que veio do outro lado do mundo, onde andam a encher as pessoas de pão e carne como se preparassem os porcos para a engorda (Hão-de se começar a comer todos uns aos outros! Vão ver!), o marido da Jertrudes teve sempre a mania de só dizer nomes e palavrões naquela língua de pagãos. Acha-se tão importante que não pode mandar as pessoas à merda em português. Em inglês é mais fino! Fiquei impressionada com esta história da dona Teresa. A mulher realmente ficou transtornada, porque não conseguiu esconder o choque quando ele lhe chamou "Bai Bai!" Fugiu logo da padaria e ficou o mundo inteiro a rir-se dela. Eu não faço ideia o que quer dizer "Bai Bai", mas não deve ser coisa boa...

Seja como for, eu disse-lhe para não pensar mais no assunto, que não devia ser uma ofença assim tão grande. Afinal, por que razão havia ele de a ofender muito, por ela lhe desejar "Bom dia!"? Não devia ser nada pior que parva ou chata. Enchi-a de bolinhos de centeio e ela limpou as beiças ranhosas e começou a desbobinar. Contou-me coisas que eu nunca imaginava. A fufa Diana, como a gente chama à filha da Virginia, traiu a namorada com outra rapariga. Eu fiquei logo de orelha espetada, temendo que ela dissesse o nome da minha querida Olívia, que eu tanto tento que não se estravie dos bons caminhos. Mas é teimosa que nem uma burra, aquela miúda! Tão perdida! E eu rezo tanto para que Deus lhe ponha juízo naquela cabeça!

Enfim... Tive que a mandar embora quando chegou a hora de almoço, porque ela não se calava e eu sei que o Matias se enerva quando ela está em casa, principalmente à hora de almoço! Aproveitei os restos de carne assada do jantar e disse ao gato que era de hoje. Ele acreditou. Ou pelo menos não se queixou. Telefonei à Olívia, para ela fazer companhia à sua avó durante o almoço, mas a rapariga atrevida disse que tinha ido almoçar no restaurante chinês dos Chuing, com um rapaz tinha conhecido quando ainda andava na escola. Os Chuing são uma família que veio viver para Portugal já há dez anos, mas ainda não sabem falar português. Ou são burros, ou fingem que o são. Seja como for, não acreditei nela, e fui ver com os meus próprios olhos. Nem almocei.

Quando cheguei àquele restaurante manhoso, com cheiro a peixe cru e ratazanas do tamanho de gatos a guardar as traseiras, procurei logo por ela, mas o chinesinho Lipopó mais novo atravessou-se logo à minha frente a perguntar-me se eu quelia comêle clépe chinês, alôz chau-chau, sói-sói de polco e outras barbaridades do género. Tive que o enchutar com duas bengaladas no lombo para ele me deixar em paz. Foi então que vi a minha neta desavergonhada a falar com a fufa Diana! Nem quis acreditar! A almoçar com um rapaz da escola? A fufa Diana pode ser mais machona que muitos rapazes de hoje em dia, mas tanto quanto sei, Deus fez dela uma mulher!

Já me estava eu a preparar para as coçar de bengala, quando a fufa Diana pediu que eu me sentasse com elas e, não sei bem como aconteceu, fiquei a conversar com elas a tarde inteira. A fufa Diana pode ter os seus defeitos, mas é muito boa pessoa. Só de olhar para mim, percebeu que a minha artrite estava pior. Disse-me logo que eu tinha que ir depressa ao médico. E viu qualquer coisa estranha nos meus olhos. Será que estava a ficar com cataratas? Fiquei coberta de medo! Como a rapariga é auxiliar no hospital, contacta com muita gente e já sabe identificar muitos problemas de saúde. E deixou-me seriamente preocupada! Nós, de um momento para o outro, estamos com os pés para a cova e nem nos apercebemos! E eu ainda era demasiado nova para ter os sinais que ela me encontrou na bochecha esquerda! Podia ser o início de um cancro maligno! E ela apercebeu-se das minhas cruzes... Disse-me que uma banana ou um pepino todas as manhãs me iam trazer anos de vida. Deus a oiça! Eu que andava a julgar aquela rapariga... Afinal, a fufa Diana até tem uma boa alma.

Fui logo marcar consulta e quando cheguei a casa, às cinco e meia, já estava a anoitecer, e o gato Matias a pedir-me o jantar. Fiz carapaus para nós dois, porque o peixe tem ferro por comer os anzóis quando é pescado, e se já tenho tantos problemas de saúde, não preciso também de uma anemia. O gato torceu a orelha, porque preferia filetes de pescada, mas eu não fiz caso do que ele me disse. Este dia deixou-me arrasada. A dona Antonieta pode ser rija, mas já é velha e não aguenta de tudo. Vou repousar agora e amanhã de manhã começo já a minha dieta de banana e pepino como a fufa Diana aconselhou. Deus guarde a sua boa alma.

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 28 de novembro de 2009

Temos que correr com a escumalha! - Dona Antonieta foi tirar Sangue!

Meus queridos, como sabem, eu sou uma senhora com muitos problemas de saúde e tenho que fazer análises muitas vezes, vá-se lá saber porquê. O meu médico há-de saber o que anda a fazer...

Para quem não sabe, quando fazemos análises, entregamos o nosso xixi num frasquinho e deixamos aqueles vampiros sugarem-nos o sangue todo pelo braço. Alguns são tão maus que em vez de me tirarem o sangue pelo braço, tiram-no pelas veias das minhas mãos, que já me doem tanto, por causa da minha artrite.

Felizmente, a querida Cátia Vá-Nessa é uma rapariga extremamente competente que sabe o que faz. "Esta moça há-de ir longe", disse eu, uma vez, à minha neta Olívia, que me acompanha sempre até ao hospital para me ajudar com as minhas cruzes.

Todavia, estes são sítios muito mal frequentados, cheios de drogados à procura de mais seringas para tirarem mais sangue. Não percebo como é que há gente que gosta de estar sempre a espetar seringas nos braços o tempo todo e sentir prazer com isso. Para mim é um martírio.

Mas há gente esquisita em todo o lado.

E com a Dona Antonieta ninguém se mete!


Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

«Nunca Mais!» - Especial Dia das Bruxas


Na noite passada, não consegui dormir. Não sei por que é que tudo aquilo aconteceu... Se foi de me ter enganado durante a missa, enquanto estávamos a rezar o Pai Nosso... Talvez fosse! Em vez de dizer «Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,» eu disse algo do género «Assim como não perdoamos a quem nos tem ofendido». Na altura não pensei que Nosso Senhor Jesus Cristo ficasse ofendido, mas agora que penso que Ele foi pregado numa cruz por nos ensinar o Pai Nosso, é capaz de ficar bastante aborrecido quando nos enganamos. Vendo bem, Ele fez um enorme sacrifício e o mínimo que podemos fazer é dizer o Pai Nosso sem nos enganarmos...

Na noite passada, o gato Matias começou a falar! Só aprendeu duas palavras, mas não se calava com isso!

Tudo começou por volta da meia-noite, com uns toques na porta do meu quarto. «Quem será a esta hora?» Pensei eu. «Quem será que bate à minha porta?» Permaneci deitada, pensando para comigo que era apenas uma visita à minha porta. Apenas uma visita e nada mais. Subitamente, pensei «Será a Olívia quem bate à minha porta?» e então a minha mente encheu-se de medos de que nem eu alguma vez imaginara... «Será um vagabundo para me violar? Será um jovem vagabundo quem está a bater à minha porta? Ou apenas a minha neta Olívia para me matar?» E com a força com que o meu coração batia, também a porta estremecia. Foi então que me levantei da cama, sem mais hesitações. Levantei-me e caminhei até à porta. «Senhor!» Disse eu, «Ou senhora! Peço-lhe o meu perdão, mas estava já a dormir quando veio bater gentilmente à minha porta». Abri então a porta de par em par... Trevas... Escuridão... e nada mais...

Ali, enfrentando as trevas, fiquei pensando, imaginando, sonhos que nenhum mortal alguma vez ousou sonhar. Foi então que o silêncio foi interrompido. «Antonieta...»

«Antonieta?» murmurei eu, para ter a certeza do que tinha ouvido e nenhum eco o repetiu. Regressei ao meu quarto e fechei a porta. Voltei então a ouvir bater. Um pouco mais alto do que antes. «De certeza que é na janela. É na janela que estão a bater.» Abri a cortinas e vi o luar. A lua e as árvores e nada mais. Abri então a janela e um gato saltou para o meu parapeito. Saltou para o parapeito e correu pelo quarto. Correu até se sentar em frente da porta do meu quarto.

«Matias Francisco! Gato malvado!» Ficou sentado e nada mais. Inclinou a cabeça e juro que lhe vi um sorriso. Nunca vira um sorriso na cara daquele gato.

«Nunca Mais!» Disse ele, subitamente. Disse ele numa voz grave e tenebrosa, enquanto o meu grito ecoava pelo quarto e pelas ruas desertas do bairro. Porém, o Matias permaneceu sentado. Nunca uma criatura olhara para uma pessoa como os olhos julgadores daquele gato. Nem um pêlo eriçou. Imóvel como uma escultura. E aqueles olhos com que me julgava. «Ele vai-se embora» pensei eu, «abre-lhe a porta e ele não volta mais.» E ele repetiu «Nunca Mais!»
Agarrei então numa cadeira e comecei a agitá-la à frente dele. À frente do gato, da porta e da foto do meu Arnaldo. Comecei então a pensar, conquanto eu me conseguia acalmar, no que é que aquele gato queria dizer com as palavras «Nunca Mais!» E a luz do luar incidiu sobre o retrato. Incidiu sobre a foto do meu Arnaldo e fez-me pensar «Quererá o gato dizer que não voltarei a ver o meu Arnaldo? O meu falecido marido Arnaldo? Não devo pensar mais nele então...» e um sorriso encheu o meu espírito e enquanto eu virava a moldura ao contrário o gato murmurou «Nunca Mais!» Todo o meu corpo estremeceu, com a voz daquele gato.

«Profeta!» Disse eu, «Profeta ainda, mesmo que sejas coisa do diabo. Assegura-me, tu que a esta casa vieste assombrar de horror, diz-me de verdade, eu imploro, que é por ter que me arrepender do meu passado! Diz-me que vieste pelos meus fantasmas, diz-me, eu to imploro!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

«Profeta!» Disse eu, «Diz-me pelo Céu e pelo Deus que ambos adoramos, diz-me por quem foste enviado! Eu to imploro! Foi pelo Frederico Rodrigo ou pelo meu Arnaldo? Diz-me que eles estão no descanso sagrado. Diz-me que repousam no descanso eterno para que o meu coração fique sossegado!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

«Sejam essas palavras a nossa despedida, gato ou amigo!» Gritei eu, esganiçada! «Vira-me as costas e parte para a noite. Parte e não deixes um único pêlo para trás, que farta de varrer os teus pêlos estou eu! Deixa-me só na minha solidão e sai da frente da minha porta! Tira as garras do meu coração e separa esses olhos da minha alma!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

E o gato, sem nunca se mexer, continua sentado. Continua sentado à porta do meu quarto. E os seus olhos parecem os olhos de um demónio que nunca dorme. E a lâmpada no tecto espalha a sombra dele pelo chão do meu quarto. E a minha alma presa àqueles olhos de demónio não voltará a repousar - Nunca Mais!

«Não faz mal.» Penso eu. «Terei que viver com isso». Agora, vou fazer o almoço. A minha neta Olívia vem cá almoçar comigo e ler-me uns poemas de um tal de Edgar Qualquer-Coisa. Talvez isso me acalme e me distraia das palavras com que aquele gato me assombrou... Nunca Mais...

Sinceramente, assombrada...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Morrer Como um Homem no Cemitério

Meus Queridos,
Estava eu a ensinar a minha neta a fazer rendas para o enchoval, quando reconheci uma voz da rádio. Eu queria ouvir Rádio Renascença, mas como já é difícil convencer a minha Olívia a fazer renda, decidi dar-lhe algum espaço e deixei-a sintonizar o aparelho na Antena 3. Havia um tal de Alvim e uma Prova Oral que me dava a sensação de ser de muito mau gosto. Mas começo a ouvir a entrevista com mais atenção e apercebo-me que reconheço os entrevistados.

Há meses atrás, um grupo armado de câmaras de filmar invadiu o cemitério da minha paróquia às quatro da manhã. Não é que depois das poucas vergonhas que lá fizeram, tiveram o descaramento de ir falar sobre isso na rádio, para toda a gente ouvir?! Ora oiçam eles a falar do que fizeram lá no minuto 45. http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/prova-oral/?k=Morrer-como-um-homem.rtp&post=15562

Vou-vos contar toda a história. Estava eu na cama, a dormir o meu segundo sono, quando oiço gritos na rua. Gritos estridentes! Assustadores! Parecia que o demónio estava a subir à Terra e o mundo se enchia de dor e ranger de dentes. Afinal, era só a Celeste, mas fazia barulho pela humanidade inteira. Agarrei-me às traves da cama para me levantar e fui até à janela, toda torta por causa das minhas cruzes e ainda vestida com a minha camisa de dormir, que é branca e tem umas rendinhas que eu própria fiz quando era mais nova.

A Celeste corria pela rua com uma vassoura nas mãos e à frente dela estava um batalhão de travestis que tentavam entrar no cemitério! Ai, era a última coisa que eu esperava ver àquelas horas da noite! Homens vestidos de mulheres, cheios de saias e lantejoulas, levavam luzes e câmaras de filmar com eles como se fossem as armas que eles iam usar para invadir aquele espaço sagrado!
Calcei as minhas chinelas e saí assim para a rua para acordar a Gracinda e a Odete, que é a responsável por guardar o cemitério. Eu posso já parecer um pouco velha, porque já sou uma senhora de uma certa idade, mas digo-vos que, saindo assim, na minha camisa de dormir branca e rendada, senti-me belíssima como já não me sentia há anos. O meu cabelo esvoaçava com o vento que apertava aquele tecido leve contra o meu corpo. Senti-me como os anjos se devem sentir. Excepto as dores, claro, e todavia até isso ignorei, tal a satisfação que aquilo me dava. Senti a mão de Deus empurrar-me na direcção daqueles homens perdidos e tomados pelo Demo. Eu gritava e lançava gargalhadas que os faziam gritar a eles. Agora, eram os travestis que tinham medo!

Só quando peguei numa mangueira para os lavar dali para fora, é que a Odete chegou, ainda cheia de sono, a pedir que nós parássemos. Um senhor de gravata tinha um papel que lhes dava autorização para filmarem no cemitério. Agora, era com a Odete que nós gritávamos! Como é que ela tinha permitido uma coisa daquelas. Afinal, parecia que a decisão não tinha sido só dela, mas do padre e do sobrinho dela, que também é um rapaz assim um bocadinho esquisito. Eu tive que largar a mangueira, até porque já tinham avisado a polícia que nós iamos atacar aquelas criaturas. Mas não pensem que voltei para casa. Fiquei de pé, toda a santa noite a ouvi-los. Se não fossem as vozes de homens, parecia quase uma história de amor. Até espreitei pelo portão para ver o que aqueles ladrões estavam a fazer, mas nunca consegui, porque havia um monstro armado em touro que me enchutava de lá para fora de cada vez que eu me aproximava.

Acabei por fingir que tinha desistido e disse ao monstro que me ia deitar, porque já estava cheia de frio. Como eu sou velhota, ele até acreditou. Contudo, a verdade é que eu e a Celeste escondemo-nos atrás de um arbusto. O gato Matias quase que nos desmascarou, mas consegui enchutá-lo antes que ele começásse a miar.

Finalmente, já quase de manhã, quando eles começaram a sair pelos portões do cemitério, eu e a Celeste levantámo-nos e começámos a correr até eles com os nossos cabos de vassoura e atingimos logo dois deles. A Celeste atingiu um traveca mesmo no canto da boca. Eu acertei na Olívia! O que é que aquela vadia da minha neta estava a fazer com aquela gente?

«Pare com isso, avó! Eu só estava a ajudar com a iluminação! Eu trabalho para eles!»
Aquela rapariga tem que aprender umas coisas! Nunca mais a deixei procurar emprego. A trabalhar com travestis! A vergonha que eu senti! O desastre na minha própria casa! O meu Arnaldo até se deve ter contorcido debaixo da terra, só de ter a neta no cemitério a ajudar a filmar um bando de travestis no meio das campas. Desde então a Olívia só trabalhou nos empregos que eu escolhi para ela. Ela pode sofrer um pouco, mas é para o bem dela. Quem é que lhe deu autorização para ser diferente e se dar com gente duvidosa? Eu é que não fui!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Meu Primeiro Casamento - A Fatídica História de Frederico Rodrigo


Esta manhã, quando apanhei o autocarro para ir aos correios, um homem exibiu-se à minha frente e fez-me recordar o meu primeiro marido. É verdade, meus queridos, a dona Antonieta teve dois maridos. E não se preocupem em relação ao exibicionista. Eu ensinei-lhe das boas. Não volta a mostrar o coisinho dele tão depressa.

O meu primeiro marido chamava-se Frederico Rodrigo e era o homem mais elegante que eu alguma vez vira na minha vida. Musculado, transpirado, ele trabalhava na quinta dos meus pais, como lenhador. Ele rachava lenha todo o santo dia com o seu machado. Quando eu acabava as minhas tarefas em casa, ia para o campo e podia ficar a observá-lo por trás de um sobreiro durante horas.

Um dia, numa das festas da minha aldeia, Casal da Desgraça, o Frederico Rodrigo abordou-me com a sua voz grave e turbulenta como uma tempestade e levou-me para a pista de dança. Oh! E ele agarrou-me como um homem. Nessa noite, fez-me o meu primeiro filho.

Segredou-me os seus segredos e sonhos, enquanto estávamos deitados num monte de feno, nus como Deus nos fez. Enquanto me cantava as músicas que ele próprio tinha escrito enquanto rachava lenha, a minha mente voou e eu fiquei nas nuvens. Frederico Rodrigo era o homem da minha vida e iria ser uma estrela.

Claro que quando percebemos que eu estava de esperanças, os nossos pais obrigaram-nos a casar. O que para mim foi como um sonho, para ele foi um pesadelo. Frederico Rodrigo teria que continuar a trabalhar como um boi para sustentar a sua família e não havia nada que ele pudesse fazer em relação aos seus sonhos.

Quando a criatura que eu tinha dentro de mim estava quase a nascer, Frederico Rodrigo teve um acidente de trabalho. Enquanto rachava lenha, o machado escorregou-lhe das mãos, deu uma pirueta no ar e enterrou-se nas suas costas. Foi no mesmo dia em que descobri que ele namorava com a Maria do Canto às escondidas, atrás da Capelinha de Nossa Senhora das Dores.

Tive duas semanas para descobrir um novo pai para o meu bebé. Foi então que conheci o Arnaldo. Um homem sensato, com um coração do tamanho do mundo, que trabalhava em Lisboa. Fomos felizes até ao dia em que ele teve aquele triste acidente. Deus o guarde para sempre.

Que Deus vos acompanhe, na Paz do Senhor.

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cataratas de Limonada

A mais triste notícia espalhou-se pela Capela da Nossa Senhora dos Aparecidos como um rio, enquanto rezávamos o terço na quarta-feira à noite. Descobrimos que a Lucinda, pobre alma, via mal porque tinha cataratas nos olhos. A mulher só tem 46 anos e ninguém me tira da cabeça que este infortúnio lhe bateu à porta por ter jantado com o Sr. Albino da Rua das Flores. Aquele homem é o Demo! Já tem sessenta e tal anos e desde que a mulher lhe pôs os cornos que decidiu comportar-se como o Chifrudo, a engatar mulheres mais novas e a fazê-las cair na tentação! À Antonieta é que ele nunca fez um convite para jantar! É só interesses!

Ora, para ajudar a pobre Lucinda, decidimos todas juntas angariar dinheiro suficiente para que a Lucinda pudesse ir a Cuba. Não percebo porque é que começaram a perguntar quanto é que custa o bilhete de avião, quando o Alentejo fica aqui tão perto. Devem ter medo que ela vá de carro e tenha um acidente.

Assim, ontem passei o dia a vender limonada com a Gracinda. Fizemos vinte euros. É um bom começo. Como o meu reumático já não me deixa segurar bem na faca, pedi à minha querida neta Olívia que me ajudasse. Claro que ela deu muito jeito a cortar os limões, a expremê-los, mas eu é que fiz a limonada. Deixo-vos já aqui o meu segredo: açúcar amarelo e uma pitadinha de guano seco, que é uma especiaria que o meu neto Ricardo trouxe das Áfricas depois de se casar. Mas não exagerem. Tem que ser na quantidade certa.

Continuando, o que eu queria era que a minha Olívia vestisse a camisola amarela que eu lhe tricotei pelos anos e me ajudasse a vender a limonada, porque nesta zona há muitos homens bem parecidos que podiam ser um bom partido para a garota. Mas a rapariga é tão tímida, tão vergonhosa! Passei a tarde a tentar convencê-la e ela só continuava a espremer limões!

E não é que, quando finalmente a convenci a vender uma limonada a um senhor que ali passava, ela conseguiu espantar-me o cliente? O gentil-homem, muito bem vestido e nos seus trinta e poucos anos (toda a gente sabe que uma rapariga, para se tornar uma boa mulher, precisa de um homem mais velho), foi sempre muito simpático e mandou algumas piadas simpáticas para a minha neta se rir para ele. E conseguiu. Eu própria, que estava a ver o enamoramento entre aqueles dois tão bem encaminhado, não consegui conter um sorriso de satisfação e de dever feito. Mas não é que, quando ela lhe estava a entregar o copo com a limonada, passa uma rabanada de vento que lhe levanta a saia?! E a desavergonhada não usava cuecas!!! O homem viu-lhe a piriquitita toda! TODA!!! Eu chamo-me Antonieta Piriquita e nunca mostrei a minha a ninguém!

Aquilo é que foi ver o homem recuar embaraçado! A vergonha que eu tive! VERGONHA! Nunca vi um homem beber uma limonada tão depressa! Até se engasgou! E no fim, soltou um «'Brigado!», como quem arrota e foi-se embora! Vou ter que ensinar tantas àquela rapariga! Se julga que vai ser Nossa Senhora e vai ter um filho do Espírito Santo, está muito enganada!
Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

P.S.: Que Deus vos acompanhe, na Paz do Senhor!