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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Exorcismo - e o fantasma da X-Box

Meus Queridos,
Perdoem-me a minha ausência. Sinto-me tão perdida. Já não sei o que faça da minha vida. Acho que estou a morrer. Como Sylvia Plath dizia, todos nós começamos a morrer a partir do momento em que nascemos, mas desta vez sei que estou mais perto de estar morta do que no dia em que nasci. Assombrada durante a noite e possuída durante o dia, passei quase um mês sem dormir. Sinto-me seca por dentro, como um pão que vai ao microondas durante demasiado tempo.
A minha artrite dá-me cabo dos dedos, mas nem por isso conseguia largar a consola. Inicialmente, comprei aquela porcaria para o gato Matias, porque ele estava de trombas e já não gostava de mim. Contudo, como o Matias não jogava, comecei eu a dar uso à coisa. Depois, apareceram aqueles suspiros e gemidos no meu quarto e tirei a fotografia àquele jovem espectro que me assombrava com aqueles olhos de quem me queria possuir. Pelo aspecto, devia ser um jovem fantasma com uns 18 anos, mais coisa, menos coisa. Agora, não percebo por que decidiu assombrar-me. E acho que ele me possuiu, de facto, porque os jovens, mesmo fantasmas, adoram jogar e eu não largava a consola nem por nada e os meus dedos continuam todos inflamados.

Eu nem sequer gosto de futebol e não parava de jogar Pro-Evolution Soccer 2010! E aqueles monstros aterrorizantes do Halo que me estavam sempre a matar e me provocavam aqueles pesadelos horripilantes! Estive quase um mês sem fazer as lides da casa, sem comer, sem me lavar, nada! As minhas vizinhas pensavam que eu estava a viver em casa dos meus filhos, porque nunca me viam sair de casa. Como é que pode ser? Estive quase um mês sem saber nada da vizinhança! Todas as conversas, brigas, coscuvilhices e segredinhos que eu perdi! À noite, quando tentava dormir qualquer coisa, lá aparecia o safardana do fantasma para me suspirar ao ouvido e me acordar. «Vai jogar, Antonieta! Ainda não chegaste ao último nível!» E eu limitava-me a obedecer, como se o meu próprio espírito já não habitasse mais em mim. O gato Matias já nem me reconhecia. Rugia de cada vez que me via!

Só quando a Celeste e o Senhor Padre vieram a minha casa, porque há já três semanas que eu não ia à missa, é que me livrei do fantasma que me tomava o corpo. Os rostos deles foram tomados de assombro quando mergulharam na obscuridade da minha sala e me viram.

- Dona Antonieta, vocemessê está num estado miserável. Largue a televisão. Precisa de se lavar, de comer...

- Estás a chamar-me porca, padre? Vai mas é para o Inferno chupar pichas com a tua mãe!

A Celeste até desmaiou! Nunca da minha boca tinham saído tais impropérios! Eu gritava e ralhava com eles até que o padre arrastou a Celeste dali para fora e foi chamar o bispo. Entretanto, depois de recuperar os sentidos, a Celeste foi pedir ajuda à pobre Lucinda, a qual, graças às suas cataratas, consegue ver o "outro mundo" com outros olhos.

Quando entraram em casa, plantaram velas por todo o lado e arrancaram-me o comando das mãos!

- Não!!! - Gritei eu, com uma voz que não era a minha. - Não gravei o último nível! Vou perder o jogo!

- O Poder de Deus Compele-te! O Poder de Deus Compele-te!

- Não me chateiem, seus bastardos, filhos de uma grande meretriz!

Foi então que amarraram ao sofá e atiraram a minha X-Box 360 para a lareira, desaparecendo por entre as chamas e o fumo negro do Inferno que encheu aquela casa. E enquanto exorcitavam aquele espírito maligno de dentro de mim, eu gritava e grunhia e cuspia e chamei-lhes nomes que nunca tinha ouvido na minha vida! A partir daí, não me lembro de mais nada. Parece que destrui a minha mesa de vidro da sala, uma moldura da minha querida Olívia, um retrato de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz e até mesmo o tampo da sanita! Depois, quando finalmente conseguiram que o demónio me libertasse, vomitei no lavatório até as tripas me arderem!

Agora, estou melhor. O Senhor Padre pediu às senhoras da Santa Casa da Misericórdia para me ajudarem durante uns dias. Elas podiam lavar-me a casa, trazer-me refeições, dar-me banho... Mas eu mandei-as embora, logo no primeiro dia! Trouxeram-me canja e queriam que eu me despisse à frente delas para me lavarem. Isso eu consigo fazer sozinha! Se me queriam ajudar, levassem-me para as termas e servissem-me caviar!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Matias, a X-Box e o Fantasma...

Meus queridos, já não sei o que fazer. O Matias zangou-se comigo. Eu devia tê-lo levado comigo para o Réveillon. Porém, em vez disso, pensei que ele se ia divertir mais com os amigos e soltei-o. Claro que, como só voltei passados alguns dias, o gato já cospia fogo pelas ventas e estava incrivelmente revoltado comigo. Nunca mais me falou. Dei-lhe pasta de atum, os camarões que roubei à minha nora, até lhe comprei fígado, que o bichano tanto adora. E nada! Nada o fez voltar a ser como era!
Assim, um dia desta semana, a Celeste disse-me que tinha comprado uma daquelas consolas barulhentas para os netos. Aquelas pestes são horríveis! Horríveis! Só vão ter com a avó pelos anos e pelo Natal! Parecem ter saído da minha família... Mas ela continuou a história, e ao que parece ela ofereceu-lhes essa coisa ruidosa para eles ficarem especados à frente da televisão como se fossem uns tontinhos, mas na condição de esta ficar lá em casa dela. A partir daí, todos os dias, depois da escola, as pestinhas vão para casa da avó. Ao início nem lhe ligavam, mas como ela lhes foi preparando uns lanches e uns bolinhos (aquela mulher faz uns bolos quase melhores que os meus... quase!) agora a avó é quase a melhor amiga deles.
Decidi, então, usar a mesma estratégia. Comprei uma consola para o Matias! Mas até agora parece não estar a surtir efeito. Já comecei a mexer naquilo, a ver se lhe faço inveja, mas sou muito má com estas coisas, e o gato continua a ignorar-me.
Entretanto, como o Matias já não dorme comigo e não adormeço com o ronronar dele aos meus ouvidos, comecei a ouvir os ruídos mais estranhos durante a noite. São de arrepiar. Começava por sentir uma presença, apenas, mas pensei que fosse tudo da minha imaginação. Nos dias seguintes, foram os afrontamentos! Credo! Tanto calor! Insuportável. Transpirava-me toda, até tinha que despir a combinação que ficava toda ensopada em suor. Finalmente, de há uma semana para cá, vieram os suspiros. Meu Deus! Se fosse uma galinha, tinha largado um ovo no preciso momento em que ouvi aquilo pela primeira vez! Que susto! Nossa Senhora dos Aflitos nos proteja a todos de uma presença que suspire daquela maneira no nosso quarto!
Decidi contar essa história à minha Olívia, ante-ontem, quando ela veio cá surripiar-me o almoço, porque parece que se zangou com a fufa Diana, com quem já andava a almoçar todos os dias... Valha-nos Deus! Pode ser que a coisa lhe passe e o Demo abandone aquele corpo!
Continuando, a minha neta, toda miserável e chorosa por causa da amiga traidora (ela não mo disse, mas eu sei que foi por isso. Aquelas lágrimas não enganam ninguém. Parece uma porquinha toda inchada e ranhosa quando está desgostosa de amores), disse-me que a melhor maneira de ver se havia alguém a assombrar-me o quarto era dar-me uma máquina fotográfica, para eu apanhar a Besta em flagrante quando começasse a perturbar-me o sono! Claro! O que ela estava à espera era que eu fotografasse a parede ou o tecto e pronto - a avózinha anda a ouvir coisas. Vamos interná-la e fazer as partilhas.
Mas não! Adormeci com a máquina fotográfica nas mãos e quando ouvi aquele sussurro outra vez, saquei do aparelho e Zás! Apanhei a criatura demoníaca mesmo a olhar para mim. Meu Deus! Os arrepios que me dá! Tenho uma aparição nua no meu quarto a assombrar-me os sonhos! Nossa Senhora dos Aflitos me proteja, que já não sei aguento mais destes afrontamentos...

Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Festas! O meu Réveillon 2010!

Como já vos disse na semana passada, as minhas últimas semanas de 2009 foram muito desgastantes. Ainda estou a recuperar. Nem sei como é que me aguentei de pé. Estive quase para pedir uma bengala pelo Natal, mas no meu íntimo desejava ainda mais que me dessem uma camisa de seda igual à da Celeste, pelo que me deixei ficar calada. Erro meu! Deram-me naprons franceses, toalhas de banho de linho egípcio, jarras de cristal para as flores dos meus canteiros! E tudo o que eu queria era uma camisa de seda como a da Celeste! Até parece que é muito difícil comprar prendas para senhoras da minha idade...
Depois do Natal, o meu querido neto Ricardo (o único que eu não consegui casar porque foi enfeitiçado por uma bruxa africana, com quem se casou e teve dois meninos mestiços, para tão grande desgosto da minha pessoa) convidou-me a ir passar o resto da semana seguinte para casa dele, para que aqueles meus bisnetos escurinhos ficassem a conhecer melhor a bisavó.
Uma semana infernal! As criaturinhas, a Anita e o Leo, de quatro e sete anos, estavam sempre a brincar aos soldados, com armas de plástico e espadas! Depois, pediam-me para eu brincar com eles. E eu até brincava, ria quase até chorar de tanto me divertir, mas era só porque eles me pediam! Tratavam-me por Avó Piriquita e adoravam os bolos que eu lhes fazia todos os dias. Fiquei a conhecer melhor a bruxeza, também, que se chama Naima-Qualquer-Coisa-Ding-Dong, que nunca queria que eu me cansasse a tentar arrumar-lhe a casa. Ela tratava de tudo! Trabalhava até às quatro da tarde e quando chegava a casa, arrumava, varria, lavava... Tudo, tudo, tudo, em menos de duas horas. Depois, acalmava os filhotes, metia-os a ler (e deviam ver a mais pequenina que ainda nem anda na escola e já lê tão bem), conversava comigo durante meia-hora e ia para a cozinha fazer o jantar para nós todos. Impressionante! Eu ainda tentava ensiná-la a cozinhar à minha maneira, mas ela enviava-me para a minha poltrona na sala e dizia que eu era a convidada e devia descansar... Não admira que antigamente fossem tão bons escravos! A mulher trabalha que se desalma! O meu neto Ricardo, se calhar, até nem fez muito mal em casar-se com aquela alma das Áfricas... Apesar de tudo, era uma mulher quase perfeita. Mas eu tenho a certeza que lhe conseguia arranjar uma mulher melhor!
Finalmente, chegou o fim do ano e eu já tremia que nem varas verdes, com medo do que podia acontecer à meia-noite, com aquele fogo de artifício e tudo... A família reuniu-se toda, outra vez, trouxeram champagne, doces, marisco (outra vez a minha nora a tentar matar-me, por causa da minha alergia ao marisco), lombo de porco e tantas, tantas iguarias, Meu Deus! Olhasse fosse para que lado fosse, ou via pessoas, ou via comida! Eram tantas gargalhadas, gritos, gente a falar alto e música aos berros! Nunca vi nada assim! O meu Arnaldo podia ter gostado de uma coisa destas, se ainda estivesse vivo, Deus tenha a sua alma em repouso. Contudo, para mim aquilo era uma barulheira que me punha a cabeça em frangalhos! E de repente...
PUM! PUM!
Começaram a rebentar bombas na rua, assim, do nada! Toda a gente a gritar e a correr para a rua e as criancinhas em pânico eram as que fugiam mais depressa! Tínhamos acabado de entrar em 2010 e dos meus olhos escorriam lágrimas de pesar pelas nossas vidas que tinham chegado ao fim! Não podia acreditar que era assim que ia ser a minha morte! E então pensei: «Antonieta Piriquita, acalma-te. Pelo menos assim não ficas sozinha no Céu, à espera do resto da família. Vão todos juntos, de uma só vez!» E comecei logo a sorrir.
Quando me levaram lá para fora, toda a gente bebia champanhe e abraçava-se e depois davam-me beijinhos a dizer: «Coitadinha da avó, está a chorar de alegria!» E era verdade, estava. Mas como nunca mais morriamos, olhei para o céu, para ver se as bombas ainda estavam muito longe, e foi aí que me apercebi que era só o fogo de artifício. Aí, fiquei brava! Os meus filhos tiveram que me agarrar! Eu queria matar os filhos da mãe que estavam a lançar os foguetes! Quase me tinham matado de susto! Eu tinha sido enganada!
Depois, sentaram-me numa cadeira, deram-me uns copos de champanhe para eu me acalmar e passas para eu não beber aquilo sem nada no bucho e a noite acabou por se tornar maravilhosa. Ficou tudo mais calmo e lento e eu fiquei toda relachada e descontraída. Fazia muito frio, na rua, mas eu até que estava cheia de calor e meti-me a dançar com os meus bisnetos... 2009 foi horrível e 2010 começou ainda pior. Todavia, Deus escreve torto por linhas direitas, e tudo se compôs com uns copos de champanhe. Foi uma maravilha e este ano adivinha-se cheio de surpresas.
Uma vez mais, Feliz 2010, meus queridos amigos que eu não conheço. Que Nosso Senhor vos guarde na sua infinita... Hip!... Qualquer coisa!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Morrer Como um Homem no Cemitério

Meus Queridos,
Estava eu a ensinar a minha neta a fazer rendas para o enchoval, quando reconheci uma voz da rádio. Eu queria ouvir Rádio Renascença, mas como já é difícil convencer a minha Olívia a fazer renda, decidi dar-lhe algum espaço e deixei-a sintonizar o aparelho na Antena 3. Havia um tal de Alvim e uma Prova Oral que me dava a sensação de ser de muito mau gosto. Mas começo a ouvir a entrevista com mais atenção e apercebo-me que reconheço os entrevistados.

Há meses atrás, um grupo armado de câmaras de filmar invadiu o cemitério da minha paróquia às quatro da manhã. Não é que depois das poucas vergonhas que lá fizeram, tiveram o descaramento de ir falar sobre isso na rádio, para toda a gente ouvir?! Ora oiçam eles a falar do que fizeram lá no minuto 45. http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/prova-oral/?k=Morrer-como-um-homem.rtp&post=15562

Vou-vos contar toda a história. Estava eu na cama, a dormir o meu segundo sono, quando oiço gritos na rua. Gritos estridentes! Assustadores! Parecia que o demónio estava a subir à Terra e o mundo se enchia de dor e ranger de dentes. Afinal, era só a Celeste, mas fazia barulho pela humanidade inteira. Agarrei-me às traves da cama para me levantar e fui até à janela, toda torta por causa das minhas cruzes e ainda vestida com a minha camisa de dormir, que é branca e tem umas rendinhas que eu própria fiz quando era mais nova.

A Celeste corria pela rua com uma vassoura nas mãos e à frente dela estava um batalhão de travestis que tentavam entrar no cemitério! Ai, era a última coisa que eu esperava ver àquelas horas da noite! Homens vestidos de mulheres, cheios de saias e lantejoulas, levavam luzes e câmaras de filmar com eles como se fossem as armas que eles iam usar para invadir aquele espaço sagrado!
Calcei as minhas chinelas e saí assim para a rua para acordar a Gracinda e a Odete, que é a responsável por guardar o cemitério. Eu posso já parecer um pouco velha, porque já sou uma senhora de uma certa idade, mas digo-vos que, saindo assim, na minha camisa de dormir branca e rendada, senti-me belíssima como já não me sentia há anos. O meu cabelo esvoaçava com o vento que apertava aquele tecido leve contra o meu corpo. Senti-me como os anjos se devem sentir. Excepto as dores, claro, e todavia até isso ignorei, tal a satisfação que aquilo me dava. Senti a mão de Deus empurrar-me na direcção daqueles homens perdidos e tomados pelo Demo. Eu gritava e lançava gargalhadas que os faziam gritar a eles. Agora, eram os travestis que tinham medo!

Só quando peguei numa mangueira para os lavar dali para fora, é que a Odete chegou, ainda cheia de sono, a pedir que nós parássemos. Um senhor de gravata tinha um papel que lhes dava autorização para filmarem no cemitério. Agora, era com a Odete que nós gritávamos! Como é que ela tinha permitido uma coisa daquelas. Afinal, parecia que a decisão não tinha sido só dela, mas do padre e do sobrinho dela, que também é um rapaz assim um bocadinho esquisito. Eu tive que largar a mangueira, até porque já tinham avisado a polícia que nós iamos atacar aquelas criaturas. Mas não pensem que voltei para casa. Fiquei de pé, toda a santa noite a ouvi-los. Se não fossem as vozes de homens, parecia quase uma história de amor. Até espreitei pelo portão para ver o que aqueles ladrões estavam a fazer, mas nunca consegui, porque havia um monstro armado em touro que me enchutava de lá para fora de cada vez que eu me aproximava.

Acabei por fingir que tinha desistido e disse ao monstro que me ia deitar, porque já estava cheia de frio. Como eu sou velhota, ele até acreditou. Contudo, a verdade é que eu e a Celeste escondemo-nos atrás de um arbusto. O gato Matias quase que nos desmascarou, mas consegui enchutá-lo antes que ele começásse a miar.

Finalmente, já quase de manhã, quando eles começaram a sair pelos portões do cemitério, eu e a Celeste levantámo-nos e começámos a correr até eles com os nossos cabos de vassoura e atingimos logo dois deles. A Celeste atingiu um traveca mesmo no canto da boca. Eu acertei na Olívia! O que é que aquela vadia da minha neta estava a fazer com aquela gente?

«Pare com isso, avó! Eu só estava a ajudar com a iluminação! Eu trabalho para eles!»
Aquela rapariga tem que aprender umas coisas! Nunca mais a deixei procurar emprego. A trabalhar com travestis! A vergonha que eu senti! O desastre na minha própria casa! O meu Arnaldo até se deve ter contorcido debaixo da terra, só de ter a neta no cemitério a ajudar a filmar um bando de travestis no meio das campas. Desde então a Olívia só trabalhou nos empregos que eu escolhi para ela. Ela pode sofrer um pouco, mas é para o bem dela. Quem é que lhe deu autorização para ser diferente e se dar com gente duvidosa? Eu é que não fui!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 1 de agosto de 2009

Ordenados e Reformas


Primeiro dia do mês e ainda não recebi a minha reforma! Como todos vocês sabem, as reformas são entregues por ordem alfabética. Por isso é que a Gracinda só recebe a reforma dela a meio do mês. Eu, por meu lado, Antonieta recebo sempre no início do mês. Hoje, apanhei o autocarro, fui aos correios, que abrem ao Sábado de manhã, e estive lá desde as nove da manhã até ao meio dia. Uma pouca vergonha! Três horas e ninguém enviou a minha reforma. Eu, Antonieta, que amanhã queria ir à feira da ladra para comprar uns sapatos que condizessem com a camisola amarela que tricotei para a minha neta Olívia. Assim, terei que lhe comprar uns que custem menos de 10 euros, ou fico sem dinheiro para comprar pão.

E por falar em descendentes, muito espantada fiquei quando me cruzei com a Celeste, a caminho de casa, e ela tinha a camisa de seda mais elegante que eu alguma vez a vi vestir. Quase fazia com que ela parecesse mais magra. Juro! Muito bonita a camisa!

Muito bem, onde é que ela foi arranjar dinheiro para uma camisa dessas, quando ela até recebe a reforma depois de mim?

O filho mais velho dela, o Gonçalo, que trabalha numa fábrica de curtumes e cheira sempre mal, recebeu ontem o ordenado e pediu logo à mulher, a Fernanda (que era uma rapariga muito jeitosa quando era nova, mas desde que engravidou do primeiro filho, isso é que foi vê-la engordar), para comprar qualquer coisa para a mãe dele, para agradecer por causa da pobre mulher tomar conta daqueles dois estafermos de netos que ela tem. Pobre coitada.

Mas pobre de mim, também! Tive os meus quatro filhos, de parto natural, casei-lhes os filhos deles e ainda mudo fraldas aos meus bisnetos, e é vê-los agradecer-me! Em vez de me comprarem uma camisa de seda, ou de me convidarem a passar uns dias de férias com eles, ralham comigo por tentar ajudar a minha Olívia a arranjar um bom partido... Que mal faz tentar que a rapariga deixe de gostar de meninas e se case com um rapaz que não se importe com isso? E ainda me dizem que se ela for monossexual isso é normal e eu não tenho nada que a chatear! Chatear! Chamam-me chata! Na minha terra, chatos são uns piolhos que aparecem lá em baixo e fazem comichão! Chamam-me chata! Eu dou-lhes os chatos!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Silicona no Magalhães - Uma mensagem para o Sr. Sócrates e como eu resolvi o problema!



Meus Queridos,

Estas últimas semanas têm sido um verdadeiro pesadelo. Então, não é que encontrei a minha neta Olívia a ver senhoras de má fama no Magalhães?!

Em primeiro lugar, venho aqui criticar o Sr. Primeiro Ministro José Sócrates, que apesar de ser um gentil-homem muito bem falante, com um bom corpo e uns modos muito aristocráticos, permitiu que o aparelho dele mostrasse coisas dessas. Acredito que ele só queria ensinar as crianças a ler e a escrever, mas não estou em crer que o Magalhães anda a mostrar maminhas para as crianças saberem de onde vem o leite.

Em segundo lugar, tenho a dizer que esta foi uma situação muito cansativa para mim, por causa de todo o trabalho que me deu. Eu já desconfiava que a minha neta Olívia não era muito normal. Já tem vinte e dois anos e ainda não está casada. E também já desconfiava que ela gostava de outras meninas. Mas andar a ver meninas de má fama no Magalhães foi para mim a última gota e meti as mãos à obra.

A minha Olívia, que nunca fala, começou logo a dizer que estava só a ver como funcionava isso de meter silicona para aumentar os peitos, mas eu sei que não era isso que ela estava a ver como funcionava. Ela não precisa de silicona. Se comesse mais, como eu lhe digo, as maminhas dela cresciam logo. Mas aquilo também já é mal de família. Foi buscar o peito ao lado do pai, porque a minha filha nunca teve problemas desses.

Ora a rapariga a mim não me engana. Nessa noite fiz-lhe logo um chá com os comprimidos que a Gracinda me emprestou, por causa da menopausa. No dia seguinte, falei com a Celeste, que também tem um neto algo duvidoso e fizemos logo um arranjinho, a ver se aqueles dois não se estraviam dos caminhos do senhor. Foi difícil convencê-los, mas depois de a ameaçar com uma trombose, consegui que a Olívia fosse jantar com aquela criatura que é o neto da Celeste. Que ninguém lhe conte, mas aquele rapaz feio parece filho de uma morsa!

Passados dois dias já andavam a conversar um com o outro e eu e a Celeste já começávamos a andar mais descansadas. Mas depois aquele pequeno monstro ofereceu uma pequena caixa de Pandora para a minha Olívia. O que vale é que eu tenho faro para estas coisas e percebi logo que aquele presente tinha a maçã de Adão lá dentro e de lá só podia vir a chave para o Inferno. E não é que eu tinha razão?! Uma caixa com pinturas para a minha Olívia se pintar como uma daquelas rameiras que andam a mostrar a combinação nos Morangos com Açúcar, que ninguém me pode negar que é produto do Belzebu!

Obriguei-a a queimar aquelas coisas com uma vela que eu tirei da sacristia da Capela da Nossa Senhora dos Aparecidos e obriguei-a a rezar o terço comigo, todos os dias, ao acordar para começar o dia na Paz do Senhor, ao almoço para comer com a benção do Senhor e ao fim do dia para dormirmos com o Senhor.

Eu rezo muito, meus filhos, mas o Senhor não me facilita as coisas e tenho que andar sempre a vigiar os trilhos que a minha prole anda a percorrer. O chifrudo anda à espreita a toda a hora e não se cansa de procurar novas almas para enganar. Tenho a certeza que é o Sr. Albino que mora na Rua das Flores. Desde que a mulher lhe pôs os cornos que anda sempre de olho nas moças mais jovens. Imagine-se... ainda a semana passada foi jantar com a Lucinda, pobre alma, vinte anos mais nova que aquela carcaça velha de sessenta anos.

Não se deixem enganar pelo chifrudo, meus filhos. Assim, já sabem onde ele mora.

Que Deus vos acompanhe, na Paz do Senhor...


Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!