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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Faz as pazes com Deus, ó Saramago!

Meus queridos,
Eu sou uma pessoa que nos funerais tem sempre as mãos pousadas sobre o regaço e não pronuncia uma única palavra. Se alguém me começa a falar bem do morto, o mais certo é eu interromper «Descansa. Podes parar com a graxa. Está morto, já não te ouve.» e, se ouço alguém a chorar, eu sou aquela pessoa que diz «Shiu! O senhor prior está a falar!».
Eu não sou uma pessoa que chore nos funerais, ou que fale irritantemente sobre o quão adorável era o morto quando estava vivo. Que horror! Era o que mais me faltava! Eu não acredito em pessoas adoráveis. Ninguém o é! Todos têm nódoas na camisa! Eu sou aquela senhora, a Dona Antonieta, que passado algum tempo, quando já ninguém fala no morto e já toda a gente o esqueceu, começa a contar histórias sobre ele. Era o que me faltava, estar a engraxar um morto! Se não se fez enquanto estava vivo, já não se faz! Por isso, quando o Zé Saramago morreu, remeti-me ao meu silêncio e esperei que se esquecessem dele. Já passou uma semana, e agora, que já pararam de engraxar o morto e as atenções se voltaram todas para o futebol, lá nas Áfricas, posso pronunciar-me.
Quero lá eu saber que ele tenha ganho um prémio em terras de bárbaros nórdicos, ou que tenha escrito uma catrefada de livros. O Zé era um homem horrível que me atormentou desde pequenina. A minha aldeia, Casal da Desgraça, fica apenas a alguns quilómetros da Azinhaga, onde ele nasceu. Ele era mais lisboeta que ribatejano. Quando ele voltava à Azinhaga, toda a gente em Casal da Desgraça dizia que aquele rapaz era lisboeta. Nós conhecemo-nos quando eu tinha os meus seis aninhos e ele... sei lá eu... era mais velho... já tinha barba... Eu estava a caminho da capelinha de Nossa Senhora das Dores - que agora já foi demolida porque o telhado estava podre - quando o rapaz se cruza comigo e chocamos. Pediu-me desculpa, eu também, e conforme ele se ia embora eu despedi-me com um «Vai com Deus!», ao que ele me responde «Deus não existe!». Chorei tanto, Meu deus! Chorei tanto! Passei o terço todo a chorar. Rezei o terço três vezes a ver se me esquecia do que ele me tinha dito, mas não conseguia. Levei dois dias a recuperar.
Depois disso, estive muito tempo sem o ver, até me casar com o meu Arnaldo, Deus o tenha em paz, e nos mudarmos para Lisboa. Ora, o meu Arnaldo era bom amigo do Zé Saramago e eu, na altura, já nem me lembrava dele, até que um dia, ao jantar, convidei a querida Ilda, a mulher dele, a quem eu emprestei uma tesoura de poda que ela nunca mais me devolveu, a ir à missa no dia seguinte, e a levar a pequenina Violante também, para conhecer as outras senhoras da vizinhança e as criancinhas da catequese, ao que ele interrompeu, dizendo «Não acredito no tempo que as pessoas perdem a rezar a um Deus que não existe!» Lembrei-me logo dele! Que escândalo! Até parti um prato!
Nessa noite, ele mostrou ao meu Arnaldo um manuscrito de um livro chamado "A Viuva", que ele próprio tinha escrito... Queria publicá-lo em breve! Um dia, sem que o meu Arnaldo soubesse, li o manuscrito e fiquei horrorizada. Telefonei para a editora e disse-lhes que era um livro horrível e mais valia ser chamado "Terra do Pecado"! Tramei-o bem tramado. O livro foi publicado na mesma, mas alteraram-lhe o título. Depois disso, ainda escreveu um livro chamado "Claraboia" e eu decidi repetir a brincadeira. Estava à espera que o contrariassem novamente e também mudassem o título do livro para "Pouca Vergonha". Porém, em vez disso, não o publicaram...
Só dezanove anos depois é que ele voltou a escrever, quando o meu Arnaldo se descuidou e lhe disse que tinha sido por minha culpa que o "Claraboia" não tinha sido publicado... O Zé riu-se que nem um perdido e parece que ficou logo inspirado. Escreveu uns "Poemas Possíveis" e pediu-me para os ler. «Pára de escrever, Zé Saramago! Que o diabo te carregue! Pára de me massacrar, que o único livro que uma senhora como eu devia ler é a bíblia!» Mas ele insistiu. Ralhei tanto com ele que a besta do homem ficou a adorar-me. A partir daí passou sempre a mandar-me os seus manuscritos. Até parecia excitar-se por eu me enfurecer tanto.
Decidi mudar de técnica. Depois da "História do Cerco de Lisboa", disse-lhe «Olha, Zé. O livro é assim-assim.» Ele franziu o sobrolho e estranhou a minha simpatia. «Por que é que não tentas fazer uma daquelas histórias bonitas, como as do Livro Sagrado? Também têm pessoas sem moral e coisas esquisitas a acontecer...» Ele pareceu convencido e pouco depois mostrou-me aquela abominação, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"! Como é que ele foi capaz?! Que horror! E o pior é que me sinto culpada por ele ter publicado o livro. Se eu tivesse sido simpática em vez de o ameaçar com a faca de cortar o pão, ele teria guardado o livro na gaveta. Por que é que eu o tentei matar com a faca de cortar o pão?! Sinto-me culpada até aos dias de hoje...
De qualquer forma, pior para ele, que se mudou para a Espanha! Mas nem mesmo lá longe deixou de me enviar aqueles manuscritos demoníacos. Bastaria que eu não os lesse e ele pararia de me atormentar! E eu ser capaz? Não era! De cada vez que recebia um manuscrito dele, eu ficava com ele dois dias sobre a mesa, tentando ganhar coragem para o atirar à fogueira. E, então, eu pensava «Calma, Antonieta! Se fazes isso, ele pensa que leste o livro e o detestaste mais do que aos outros!» E lá ia eu ler aquelas barbaridades sob a luz do candeeiro, para depois lhe escrever uma carta com todos os impropérios de que me conseguia lembrar!
Por cada vez que li um livro dele, voltei a ler a bíblia toda do génesis ao apocalipse, como que a pedir perdão a Deus Nosso Senhor. Finalmente, depois de ter cegado a humanidade inteira e de ter transformado a morte numa mulher, decidiu chamar filho da puta a Deus e dessa vez enfureci-me de tal forma que queimei mesmo o manuscrito e enviei-lhe as cinzas por correio. E não é que o velho rezingão também publicou aquele absurdo?
Enfim, agora ele morreu. Entretanto, já li a Bíblia outra vez e tenho a sensação de estar à espera que qualquer dia me apareça outro manuscrito cá em casa... Ouvi dizer que aquele rapazinho que me cumprimenta todos os dias quando vai para a faculdade aqui ao lado gosta de escrever... Talvez, um dia, me deixe ler um dos seus manuscritos...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Festas! O meu Réveillon 2010!

Como já vos disse na semana passada, as minhas últimas semanas de 2009 foram muito desgastantes. Ainda estou a recuperar. Nem sei como é que me aguentei de pé. Estive quase para pedir uma bengala pelo Natal, mas no meu íntimo desejava ainda mais que me dessem uma camisa de seda igual à da Celeste, pelo que me deixei ficar calada. Erro meu! Deram-me naprons franceses, toalhas de banho de linho egípcio, jarras de cristal para as flores dos meus canteiros! E tudo o que eu queria era uma camisa de seda como a da Celeste! Até parece que é muito difícil comprar prendas para senhoras da minha idade...
Depois do Natal, o meu querido neto Ricardo (o único que eu não consegui casar porque foi enfeitiçado por uma bruxa africana, com quem se casou e teve dois meninos mestiços, para tão grande desgosto da minha pessoa) convidou-me a ir passar o resto da semana seguinte para casa dele, para que aqueles meus bisnetos escurinhos ficassem a conhecer melhor a bisavó.
Uma semana infernal! As criaturinhas, a Anita e o Leo, de quatro e sete anos, estavam sempre a brincar aos soldados, com armas de plástico e espadas! Depois, pediam-me para eu brincar com eles. E eu até brincava, ria quase até chorar de tanto me divertir, mas era só porque eles me pediam! Tratavam-me por Avó Piriquita e adoravam os bolos que eu lhes fazia todos os dias. Fiquei a conhecer melhor a bruxeza, também, que se chama Naima-Qualquer-Coisa-Ding-Dong, que nunca queria que eu me cansasse a tentar arrumar-lhe a casa. Ela tratava de tudo! Trabalhava até às quatro da tarde e quando chegava a casa, arrumava, varria, lavava... Tudo, tudo, tudo, em menos de duas horas. Depois, acalmava os filhotes, metia-os a ler (e deviam ver a mais pequenina que ainda nem anda na escola e já lê tão bem), conversava comigo durante meia-hora e ia para a cozinha fazer o jantar para nós todos. Impressionante! Eu ainda tentava ensiná-la a cozinhar à minha maneira, mas ela enviava-me para a minha poltrona na sala e dizia que eu era a convidada e devia descansar... Não admira que antigamente fossem tão bons escravos! A mulher trabalha que se desalma! O meu neto Ricardo, se calhar, até nem fez muito mal em casar-se com aquela alma das Áfricas... Apesar de tudo, era uma mulher quase perfeita. Mas eu tenho a certeza que lhe conseguia arranjar uma mulher melhor!
Finalmente, chegou o fim do ano e eu já tremia que nem varas verdes, com medo do que podia acontecer à meia-noite, com aquele fogo de artifício e tudo... A família reuniu-se toda, outra vez, trouxeram champagne, doces, marisco (outra vez a minha nora a tentar matar-me, por causa da minha alergia ao marisco), lombo de porco e tantas, tantas iguarias, Meu Deus! Olhasse fosse para que lado fosse, ou via pessoas, ou via comida! Eram tantas gargalhadas, gritos, gente a falar alto e música aos berros! Nunca vi nada assim! O meu Arnaldo podia ter gostado de uma coisa destas, se ainda estivesse vivo, Deus tenha a sua alma em repouso. Contudo, para mim aquilo era uma barulheira que me punha a cabeça em frangalhos! E de repente...
PUM! PUM!
Começaram a rebentar bombas na rua, assim, do nada! Toda a gente a gritar e a correr para a rua e as criancinhas em pânico eram as que fugiam mais depressa! Tínhamos acabado de entrar em 2010 e dos meus olhos escorriam lágrimas de pesar pelas nossas vidas que tinham chegado ao fim! Não podia acreditar que era assim que ia ser a minha morte! E então pensei: «Antonieta Piriquita, acalma-te. Pelo menos assim não ficas sozinha no Céu, à espera do resto da família. Vão todos juntos, de uma só vez!» E comecei logo a sorrir.
Quando me levaram lá para fora, toda a gente bebia champanhe e abraçava-se e depois davam-me beijinhos a dizer: «Coitadinha da avó, está a chorar de alegria!» E era verdade, estava. Mas como nunca mais morriamos, olhei para o céu, para ver se as bombas ainda estavam muito longe, e foi aí que me apercebi que era só o fogo de artifício. Aí, fiquei brava! Os meus filhos tiveram que me agarrar! Eu queria matar os filhos da mãe que estavam a lançar os foguetes! Quase me tinham matado de susto! Eu tinha sido enganada!
Depois, sentaram-me numa cadeira, deram-me uns copos de champanhe para eu me acalmar e passas para eu não beber aquilo sem nada no bucho e a noite acabou por se tornar maravilhosa. Ficou tudo mais calmo e lento e eu fiquei toda relachada e descontraída. Fazia muito frio, na rua, mas eu até que estava cheia de calor e meti-me a dançar com os meus bisnetos... 2009 foi horrível e 2010 começou ainda pior. Todavia, Deus escreve torto por linhas direitas, e tudo se compôs com uns copos de champanhe. Foi uma maravilha e este ano adivinha-se cheio de surpresas.
Uma vez mais, Feliz 2010, meus queridos amigos que eu não conheço. Que Nosso Senhor vos guarde na sua infinita... Hip!... Qualquer coisa!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 2ª Parte

Uff... Já estou mais recomposta agora...
Como eu vos estava a contar, esta semana vi algo que só podia ser obra do diabo, pela janela do meu quarto.
Pela janela do meu quarto consigo ver o pátio da escola primária, onde aquelas pequenas criaturas a que toda a gente chama crianças brincam e gritam e acabam por chorar algumas vezes. Pois fiquei estarrecida quando vi um espectáculo inimaginável. Um dos miúdos, o Rodrigo, neto da Hortênsia, que tem muito mau feitio, estava sentado nos degraus da escola a observar um pombo. Observava o pombinho, com aqueles olhos redondos de atrasadinho que a avó também tem, com tanta atenção, que seria de esperar que até fosse boa pessoa. Levanta a sacola, tira de lá um pão com marmelada que a mãe deve ter comprado na mercearia do Sr. Alberto, que é muito boa e docinha cá dentro, começa a atirar bocadinhos de côdea ao bicho. O pombo louco a devorar os bocados de pão que voavam pelo ar, o miudinho a observá-lo calado e os colegas a correr e a saltar pelo recreio que nem cabrinhas montesas. Até aqui tudo bem.
Porém, o Rodriguinho farta-se e atira com o papo-seco inteiro ao pombo. Enjojado, o bicho ainda cambaleia algumas vezes, mas depressa se apercebe do banquete que lhe tinha caído em cima e começa a comê-lo. O Rodriguinho deve ter ficado desapontado e levantou-se. Pronto, vai brincar com os amigos, não é? Não! Pega numa pedra bem grande e atira-a ao pombo! Desta vez, o animal não se refez tão depressa. Já nem conseguia fugir do miúdo enquanto este levantava o pedregulho do chão e se voltava a aproximar. O bicho bem que abanava as asas e se contorcia todo, mas já era tarde de mais. Leva com a pedra mais duas vezes antes de parar de se debater. Depois, era ver o Rodriguinho a correr atrás de um colega, com a pedra sangrenta e com penas nas mãos. O colega bem que gritava "Não me toques com essa pedra", mas o Rodriguinho não desistiu enquanto não lhe sujou as calças e um jovem bastante elegante que passava pela rua apareceu para lhe puxar as orelhas.
O Demo andava à espreitei e encontrou ali um súbdito fresquinho! Ele anda à caça de seguidores e o Dia do Julgamento aproxima-se cada vez mais! Temos que ler os sinais! Eles andem aí!
Seja como for, eu adorei ver a forma como aquele jovem rapaz soube dar uns açoites bem valentes no rabo do Rodrigo. Aquele miúdo bem os merecia. O rapaz sabia como dar educação às crianças. "A força da mão é o melhor remédio para a má educação!" Eu sempre o disse. Há-de ser um bom pai, um dia. Tenho a certeza. E, pelo aspecto, julgo que deve ter tudo o que é preciso num bom homem de família, se é que me entendem... Mesmo sendo tão difícil de se enamorar por rapazes, estou certa de que até a minha neta Olívia era capaz de o achar encantador. Oh! acrescentem-lhe uns anos e hão-de ver o homem que ele há-de ser! Já é tão alto e robusto... Esperem para ver!
Acontece que eu não ando a ver o tempo passar, excepto quando não há nada para fazer, e decidi meter mãos à obra. Saí de casa, atravessei a rua e Pum! Estatelei-me no chão. O jovem encantado largou logo o Rodrigo da mão e veio em meu auxílio! Ajudou-me a levantar-me do chão, uma pobre velhinha em apuros. Estava tão desorientada (pensava ele) que nem me lembrava onde ficava a minha casa! Tão prestável que ele era! Levou-me para o emprego dele, onde eu poderia ficar em segurança até alguém me ir buscar. Chamava-se Jorge e trabalhava num cinema. Para quem não sabe, um cinema é como um teatro, onde as pessoas se sentam e vêm um filme numa televisão gigante. Fui algumas vezes, quando era jovem, com o meu Arnaldo. Mas depois os filmes ficaram a cores e perderam a piada. Já não tinham o mesmo encanto.
Continuando, quando lá chegámos, ele puxou uma cadeira para eu me sentar, muito cavalheiro, atrás do balcão, para eu poder fazer uma chamada para alguém da minha família. Telefonei para a minha Olívia, claro. Mas a porcalhona só foi capaz de ir buscar a avó meia hora depois. Tratei logo de os apresentar. Ainda passei as mãos pelo cabelo dela e tirei-lhe aquele maldito gorro que ela agora usa. Penteei-a com os dedos, enquanto ela tentava livrar-se de mim, mas acho que consegui que ela se parecesse com uma cidadã e o querido Jorge foi muito simpático com ela. Disse que não tinha muito tempo, porque as pessoas já estavam a entrar para as salas e ele tinha que ir projectar o filme, mas deixava-nos entrar de graça, se nós quiséssemos. Dei uma cotovelada na Olívia e ela aceitou. Até sorriu para ele. Finalmente, começou a aprender comigo!

Mas, sinceramente, preferia, agora que já vi o filme, que ela tivesse rejeitado a oferta. O filme era estrangeiro e tinha legendas que passavam demasiado depressa e era-me difícil lê-las. Depois havia uma gruta com água a ferver. A história estava um bocado confusa, mas pareceu-me que a água estava a ferver porque ó Inferno estava a chegar à terra. Depois, havia um homem barbudo que não sabia comer sem se babar todo e outro que estava divorciado e tinha levado os filhos a acampar. Finalmente, o diabo parece começar a conseguir abrir umas fendas no chão com terramotos. E que terramotos! Aquilo parecia o fim do mundo! Era gente a morrer em todo o lado e a cair de prédios e aviões a voar pelo meio! Meu Deus! Eu não parava de me contorcer! Estava quase a gritar! Mas como eles deviam ser boas pessoas, Deus até os salvou e eles conseguiram escapar. Mas depois... Ai, Credo! Quando o Diabo consegue escapar por uma montanha... Foi uma explosão de queimar os olhos! Um mar de chamas assustador! Uma nuvem de fumo e brasas a espalhar-se pela terra inteira! Eu não aguentei mais e comecei a gritar! Ainda por cima começaram a agarrar-me por todos os lados! Eram só mãos à minha volta e a puxarem-me! Eu gritava por ajuda! Uma ajuda que não chegava! «Oh, Meu Deus! Oh, Meu Deus! Salva-me! Oh, Meu Deus!» Eu meti as mãos nos olhos e só os abri quando aquelas mãos me largaram e eu já estava fora do cinema. A minha Olívia dizia-me para me acalmar, que era só um filme! Mas como é que podia ser um filme, se eu tinha acabado de ver aquilo tudo! O homem das barbas e aquela gente toda tinha morrido! E a nuvem demoníaca que saiu com a explosão de certeza que vinha a caminho! Eles podiam achar que não, mas aquilo tinha acontecido e de certeza que era o diabo a invadir o mundo! Eles não perceberam o filme! Aquilo era a sério e eles não perceberam!
O Jorge chamou um táxi e a Olívia levou-me até casa. Deu-me um chá e chamou a fufa Diana para me dar uns comprimidos que ela toma quando está nervosa, mas ainda não consegui parar de tremer! Nem durmo bem à noite! O mundo é grande, mas eu sei que ele vem aí. Foi por isso que Deus me deu o gato Matias! É o meu guardião. E é ele que vai decidir se eu fico cá em baixo a arder ou se vou para o Céu! E eu hei-de ir para o Céu, ou não me chamo Antonieta!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 1ª Parte



Ai, meus queridos, ainda não consegui parar de tremer. Esta semana, fui com a minha Olívia ao cinema. Porquê? Porque por muito simpática que seja a fufa Diana, não deixarei que a minha neta caia nos caminhos da luxúria e da perdição! Jamais!

Esta semana, sentei-me à janela do meu quarto, algo que eu faço algumas vezes, e vi algo que só pode ter sido obra do diabo! Pela minha janela consigo ver todo o meu bairro. Quando não vejo o que as minhas vizinhas andam a fazer, ou os trabalhadores da obras na igreja de Nossa Senhora dos Aflitos, que se matam a trabalhar, todo o santo dia a martelar e a transpirar e a mandar piropos de cima do telhado da igreja às raparigas que vão para a Universidade... É uma vergonha, mas... Oh! Aquilo é que são homens! Fortes que nem touros! Têm pêlos no peito!

Onde é que eu ia? Olhem, já nem sei. Vou fazer um chá. Mais logo acabo a história. Os afrontamentos dão cabo de mim... Meu Deus... A falta que o meu Arnaldo me faz...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

«Nunca Mais!» - Especial Dia das Bruxas


Na noite passada, não consegui dormir. Não sei por que é que tudo aquilo aconteceu... Se foi de me ter enganado durante a missa, enquanto estávamos a rezar o Pai Nosso... Talvez fosse! Em vez de dizer «Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,» eu disse algo do género «Assim como não perdoamos a quem nos tem ofendido». Na altura não pensei que Nosso Senhor Jesus Cristo ficasse ofendido, mas agora que penso que Ele foi pregado numa cruz por nos ensinar o Pai Nosso, é capaz de ficar bastante aborrecido quando nos enganamos. Vendo bem, Ele fez um enorme sacrifício e o mínimo que podemos fazer é dizer o Pai Nosso sem nos enganarmos...

Na noite passada, o gato Matias começou a falar! Só aprendeu duas palavras, mas não se calava com isso!

Tudo começou por volta da meia-noite, com uns toques na porta do meu quarto. «Quem será a esta hora?» Pensei eu. «Quem será que bate à minha porta?» Permaneci deitada, pensando para comigo que era apenas uma visita à minha porta. Apenas uma visita e nada mais. Subitamente, pensei «Será a Olívia quem bate à minha porta?» e então a minha mente encheu-se de medos de que nem eu alguma vez imaginara... «Será um vagabundo para me violar? Será um jovem vagabundo quem está a bater à minha porta? Ou apenas a minha neta Olívia para me matar?» E com a força com que o meu coração batia, também a porta estremecia. Foi então que me levantei da cama, sem mais hesitações. Levantei-me e caminhei até à porta. «Senhor!» Disse eu, «Ou senhora! Peço-lhe o meu perdão, mas estava já a dormir quando veio bater gentilmente à minha porta». Abri então a porta de par em par... Trevas... Escuridão... e nada mais...

Ali, enfrentando as trevas, fiquei pensando, imaginando, sonhos que nenhum mortal alguma vez ousou sonhar. Foi então que o silêncio foi interrompido. «Antonieta...»

«Antonieta?» murmurei eu, para ter a certeza do que tinha ouvido e nenhum eco o repetiu. Regressei ao meu quarto e fechei a porta. Voltei então a ouvir bater. Um pouco mais alto do que antes. «De certeza que é na janela. É na janela que estão a bater.» Abri a cortinas e vi o luar. A lua e as árvores e nada mais. Abri então a janela e um gato saltou para o meu parapeito. Saltou para o parapeito e correu pelo quarto. Correu até se sentar em frente da porta do meu quarto.

«Matias Francisco! Gato malvado!» Ficou sentado e nada mais. Inclinou a cabeça e juro que lhe vi um sorriso. Nunca vira um sorriso na cara daquele gato.

«Nunca Mais!» Disse ele, subitamente. Disse ele numa voz grave e tenebrosa, enquanto o meu grito ecoava pelo quarto e pelas ruas desertas do bairro. Porém, o Matias permaneceu sentado. Nunca uma criatura olhara para uma pessoa como os olhos julgadores daquele gato. Nem um pêlo eriçou. Imóvel como uma escultura. E aqueles olhos com que me julgava. «Ele vai-se embora» pensei eu, «abre-lhe a porta e ele não volta mais.» E ele repetiu «Nunca Mais!»
Agarrei então numa cadeira e comecei a agitá-la à frente dele. À frente do gato, da porta e da foto do meu Arnaldo. Comecei então a pensar, conquanto eu me conseguia acalmar, no que é que aquele gato queria dizer com as palavras «Nunca Mais!» E a luz do luar incidiu sobre o retrato. Incidiu sobre a foto do meu Arnaldo e fez-me pensar «Quererá o gato dizer que não voltarei a ver o meu Arnaldo? O meu falecido marido Arnaldo? Não devo pensar mais nele então...» e um sorriso encheu o meu espírito e enquanto eu virava a moldura ao contrário o gato murmurou «Nunca Mais!» Todo o meu corpo estremeceu, com a voz daquele gato.

«Profeta!» Disse eu, «Profeta ainda, mesmo que sejas coisa do diabo. Assegura-me, tu que a esta casa vieste assombrar de horror, diz-me de verdade, eu imploro, que é por ter que me arrepender do meu passado! Diz-me que vieste pelos meus fantasmas, diz-me, eu to imploro!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

«Profeta!» Disse eu, «Diz-me pelo Céu e pelo Deus que ambos adoramos, diz-me por quem foste enviado! Eu to imploro! Foi pelo Frederico Rodrigo ou pelo meu Arnaldo? Diz-me que eles estão no descanso sagrado. Diz-me que repousam no descanso eterno para que o meu coração fique sossegado!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

«Sejam essas palavras a nossa despedida, gato ou amigo!» Gritei eu, esganiçada! «Vira-me as costas e parte para a noite. Parte e não deixes um único pêlo para trás, que farta de varrer os teus pêlos estou eu! Deixa-me só na minha solidão e sai da frente da minha porta! Tira as garras do meu coração e separa esses olhos da minha alma!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

E o gato, sem nunca se mexer, continua sentado. Continua sentado à porta do meu quarto. E os seus olhos parecem os olhos de um demónio que nunca dorme. E a lâmpada no tecto espalha a sombra dele pelo chão do meu quarto. E a minha alma presa àqueles olhos de demónio não voltará a repousar - Nunca Mais!

«Não faz mal.» Penso eu. «Terei que viver com isso». Agora, vou fazer o almoço. A minha neta Olívia vem cá almoçar comigo e ler-me uns poemas de um tal de Edgar Qualquer-Coisa. Talvez isso me acalme e me distraia das palavras com que aquele gato me assombrou... Nunca Mais...

Sinceramente, assombrada...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Morrer Como um Homem no Cemitério

Meus Queridos,
Estava eu a ensinar a minha neta a fazer rendas para o enchoval, quando reconheci uma voz da rádio. Eu queria ouvir Rádio Renascença, mas como já é difícil convencer a minha Olívia a fazer renda, decidi dar-lhe algum espaço e deixei-a sintonizar o aparelho na Antena 3. Havia um tal de Alvim e uma Prova Oral que me dava a sensação de ser de muito mau gosto. Mas começo a ouvir a entrevista com mais atenção e apercebo-me que reconheço os entrevistados.

Há meses atrás, um grupo armado de câmaras de filmar invadiu o cemitério da minha paróquia às quatro da manhã. Não é que depois das poucas vergonhas que lá fizeram, tiveram o descaramento de ir falar sobre isso na rádio, para toda a gente ouvir?! Ora oiçam eles a falar do que fizeram lá no minuto 45. http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/prova-oral/?k=Morrer-como-um-homem.rtp&post=15562

Vou-vos contar toda a história. Estava eu na cama, a dormir o meu segundo sono, quando oiço gritos na rua. Gritos estridentes! Assustadores! Parecia que o demónio estava a subir à Terra e o mundo se enchia de dor e ranger de dentes. Afinal, era só a Celeste, mas fazia barulho pela humanidade inteira. Agarrei-me às traves da cama para me levantar e fui até à janela, toda torta por causa das minhas cruzes e ainda vestida com a minha camisa de dormir, que é branca e tem umas rendinhas que eu própria fiz quando era mais nova.

A Celeste corria pela rua com uma vassoura nas mãos e à frente dela estava um batalhão de travestis que tentavam entrar no cemitério! Ai, era a última coisa que eu esperava ver àquelas horas da noite! Homens vestidos de mulheres, cheios de saias e lantejoulas, levavam luzes e câmaras de filmar com eles como se fossem as armas que eles iam usar para invadir aquele espaço sagrado!
Calcei as minhas chinelas e saí assim para a rua para acordar a Gracinda e a Odete, que é a responsável por guardar o cemitério. Eu posso já parecer um pouco velha, porque já sou uma senhora de uma certa idade, mas digo-vos que, saindo assim, na minha camisa de dormir branca e rendada, senti-me belíssima como já não me sentia há anos. O meu cabelo esvoaçava com o vento que apertava aquele tecido leve contra o meu corpo. Senti-me como os anjos se devem sentir. Excepto as dores, claro, e todavia até isso ignorei, tal a satisfação que aquilo me dava. Senti a mão de Deus empurrar-me na direcção daqueles homens perdidos e tomados pelo Demo. Eu gritava e lançava gargalhadas que os faziam gritar a eles. Agora, eram os travestis que tinham medo!

Só quando peguei numa mangueira para os lavar dali para fora, é que a Odete chegou, ainda cheia de sono, a pedir que nós parássemos. Um senhor de gravata tinha um papel que lhes dava autorização para filmarem no cemitério. Agora, era com a Odete que nós gritávamos! Como é que ela tinha permitido uma coisa daquelas. Afinal, parecia que a decisão não tinha sido só dela, mas do padre e do sobrinho dela, que também é um rapaz assim um bocadinho esquisito. Eu tive que largar a mangueira, até porque já tinham avisado a polícia que nós iamos atacar aquelas criaturas. Mas não pensem que voltei para casa. Fiquei de pé, toda a santa noite a ouvi-los. Se não fossem as vozes de homens, parecia quase uma história de amor. Até espreitei pelo portão para ver o que aqueles ladrões estavam a fazer, mas nunca consegui, porque havia um monstro armado em touro que me enchutava de lá para fora de cada vez que eu me aproximava.

Acabei por fingir que tinha desistido e disse ao monstro que me ia deitar, porque já estava cheia de frio. Como eu sou velhota, ele até acreditou. Contudo, a verdade é que eu e a Celeste escondemo-nos atrás de um arbusto. O gato Matias quase que nos desmascarou, mas consegui enchutá-lo antes que ele começásse a miar.

Finalmente, já quase de manhã, quando eles começaram a sair pelos portões do cemitério, eu e a Celeste levantámo-nos e começámos a correr até eles com os nossos cabos de vassoura e atingimos logo dois deles. A Celeste atingiu um traveca mesmo no canto da boca. Eu acertei na Olívia! O que é que aquela vadia da minha neta estava a fazer com aquela gente?

«Pare com isso, avó! Eu só estava a ajudar com a iluminação! Eu trabalho para eles!»
Aquela rapariga tem que aprender umas coisas! Nunca mais a deixei procurar emprego. A trabalhar com travestis! A vergonha que eu senti! O desastre na minha própria casa! O meu Arnaldo até se deve ter contorcido debaixo da terra, só de ter a neta no cemitério a ajudar a filmar um bando de travestis no meio das campas. Desde então a Olívia só trabalhou nos empregos que eu escolhi para ela. Ela pode sofrer um pouco, mas é para o bem dela. Quem é que lhe deu autorização para ser diferente e se dar com gente duvidosa? Eu é que não fui!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Meu Primeiro Casamento - A Fatídica História de Frederico Rodrigo


Esta manhã, quando apanhei o autocarro para ir aos correios, um homem exibiu-se à minha frente e fez-me recordar o meu primeiro marido. É verdade, meus queridos, a dona Antonieta teve dois maridos. E não se preocupem em relação ao exibicionista. Eu ensinei-lhe das boas. Não volta a mostrar o coisinho dele tão depressa.

O meu primeiro marido chamava-se Frederico Rodrigo e era o homem mais elegante que eu alguma vez vira na minha vida. Musculado, transpirado, ele trabalhava na quinta dos meus pais, como lenhador. Ele rachava lenha todo o santo dia com o seu machado. Quando eu acabava as minhas tarefas em casa, ia para o campo e podia ficar a observá-lo por trás de um sobreiro durante horas.

Um dia, numa das festas da minha aldeia, Casal da Desgraça, o Frederico Rodrigo abordou-me com a sua voz grave e turbulenta como uma tempestade e levou-me para a pista de dança. Oh! E ele agarrou-me como um homem. Nessa noite, fez-me o meu primeiro filho.

Segredou-me os seus segredos e sonhos, enquanto estávamos deitados num monte de feno, nus como Deus nos fez. Enquanto me cantava as músicas que ele próprio tinha escrito enquanto rachava lenha, a minha mente voou e eu fiquei nas nuvens. Frederico Rodrigo era o homem da minha vida e iria ser uma estrela.

Claro que quando percebemos que eu estava de esperanças, os nossos pais obrigaram-nos a casar. O que para mim foi como um sonho, para ele foi um pesadelo. Frederico Rodrigo teria que continuar a trabalhar como um boi para sustentar a sua família e não havia nada que ele pudesse fazer em relação aos seus sonhos.

Quando a criatura que eu tinha dentro de mim estava quase a nascer, Frederico Rodrigo teve um acidente de trabalho. Enquanto rachava lenha, o machado escorregou-lhe das mãos, deu uma pirueta no ar e enterrou-se nas suas costas. Foi no mesmo dia em que descobri que ele namorava com a Maria do Canto às escondidas, atrás da Capelinha de Nossa Senhora das Dores.

Tive duas semanas para descobrir um novo pai para o meu bebé. Foi então que conheci o Arnaldo. Um homem sensato, com um coração do tamanho do mundo, que trabalhava em Lisboa. Fomos felizes até ao dia em que ele teve aquele triste acidente. Deus o guarde para sempre.

Que Deus vos acompanhe, na Paz do Senhor.

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!