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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Morta e Engaiolada!


Depois deste incidente com os ladrões em Northampton, o meu filho Zé decidiu que estava na hora de trazer a mãezinha de volta para casa, antes que se metesse mais em sarilhos e acabasse magoada.

Sinceramente, para mim, trazerem-me de volta para Portugal porque não estou segura na Grã-Bretanha é uma enorme piada de mau gosto!

Ora, a primeira notícia que vejo na televisão quando regresso ao meu velho sofá (nem foram capazes de lhe limpar o pó, na minha ausência! Falta de consigre... consigra... uma falta de consigração por quem lhes limpou o rabo quando eram crianças! Uma falta de consigração por quem lhes batia no rabo quando diziam algum palavrão! Eu é que fiz desta família pessoas adultas e de respeito!...)

Onde é que eu ia?

Ah, sim. O sofá...

Sentei-me no sofá, em cima do gato Matias (tive que lhe dar uma bengalada quando me ferrou as unhas no rabo), liguei o televisor, e qual é o meu espanto quando descubro que deixaram uma senhora de idade, em tudo como eu, falecer e apodrecer na sua própria casa durante 9 anos!

Estou chocada! Verdadeiramente chocada! Eu estive na Tailândia e nunca vi tal coisa acontecer! Aliás! Melhor do que isso é o que lá fazem aos drogados! Quando os apanham, nunca mais saiem da cadeia, os desgraçados!

Faleceu a senhora, o cão ao pé do frigorífico e os piriquitos engaiolados, tal como a dona! O primo que a ia visitar todas as semanas foi à polícia, onde lhe diziam que não podiam fazer nada sem ordens do tribunal. Foi 13 vezes ao tribunal e tudo o que conseguiu foi que se rissem na sua cara. Foi preciso o governo, aquela cambada de esfomeados, querer vender a casa para cobrar as dívidas da senhora, que só não as pagou porque estava morta, para que alguém arrombasse a porta e se deparasse com aquele pesadelo.

Se o primo invadisse a casa sem consentimento das autoridades, ia preso. Até o podiam culpar da morte da senhora... Os próprios vizinhos apostavam que a mulher lá estava morta. Toda a gente o sabia. Os que queriam fazer alguma coisa não podiam e os outros não queriam e prontos!...

Enfim, meus queridos... Agora, que estou de volta, e encontro a minha neta casada com a fuf... Oh, Meu Deus! Perdoa-as... Casada com a fufa Diana! Ai, Meu Deus... Elas não fazem por mal. Não sabem as ofensas que Lhe fazem, Ó Senhor...

Bem, encontrei a minha querida Olívia assim e já tive uma conversa séria com ela e com o meu advogado. Ela tem a chave da minha casa e está autorizadíssima a abrir a minha casa sempre que pensar que eu estou morta e padecida! Tenho-vos a vós, meus queridos, como testemunhas das minhas palavras. Além disso, escondi ainda outra chave, caso a moça perca a chave que eu lhe dei (é muito aluado, aquele trambolho tonto que me está sempre a ajudar), nas traseiras do meu quintal, por baixo daquela raíz do pessegueiro com a forma de uma morsa de barriga para cima! Não digam a ninguém! Só ela é que sabe!

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dona Antonieta está de volta!


Meus queridos! Tantas saudades que eu tive de partilhar os meus dias convosco... Depois dos pequenos incidentes com a X-Box de há uns meses atrás, os meus filhos pensaram «A mamã está a ficar muito solitária e isso já não é bom na idade dela. Devíamos enfiá-la num LAR, COM OUTROS VELHINHOS CAQUÉTICOS COMO ELA!» A mim, Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita! Como é que foram capazes? Eu que sempre fiz a minha vida sem ajuda de ninguém, sempre tive a minha casa e lutei pelas minhas coisas! Até os meus bibelôs! A quantidade de vezes que lutei com aquela vaca da Josefa (que ainda não voltou do Brasil) pelos bibelôs que agora enfeitam os meus móveis! Consegui vencê-la sempre! Ela nunca comprou um bibelô que eu quisesse comprar!

Continuando... Eles levaram-me para um lar (supostamente) de luxo, com muitas regalias e muitos velhinhos com quem eu poderia conversar, mas aquilo era uma treta pegada! A maioria dos velhinhos nem falavam! Babavam-se! E aquilo não tinha luxo nenhum, se é que chamam luxo a eu ter o meu próprio quarto e uma casa de banho privada! A isso eu não chamo luxo! Chamo "o mínimo aceitável" para uma senhora como eu! Não vivi estes anos todos para me atirarem areia para os olhos!

Seja como for, lá conhecia a Julieta, uma grande coscuvilheira, mas boa amiga. Podíamos passar horas a conversar. E como o lar tinha muita gente, não era difícil arranjarmos motivo de conversa. Havia sempre os podres de alguém, os boatos deste e daquele... e como ela já lá estava há dois anos, conhecia também muitos outros que também por lá tinham passado, mas que já não se encontravam entre nós. Infelizmente, descobri mais tarde que metade das histórias eram falsas e que da mesma forma que ela falava comigo sobre os outros, falava com os outros sobre mim. Claro que ela não se ficou a rir, quando passaram no noticiário que se tinham casado duas lésbicas em Portugal (o Demo anda ocupado...) e eu me levantei-me e disse, diante de todos, alto e bom som, que uma delas era filha da Julieta!

Perdi uma amiga e ganhei muitas mais. É como na escola. Assim que mostrei que com a Antonieta não se brinca, tornei-me popular. Até tive os meus interesses amorosos. O Manuel Fonseca era muito galante, mas estava tão gordo, valha-me Deus... E o Alberto Silva também era um senhor com H grande (e não só, pelo que as enfermeiras davam a entender com os seus borborinhos, de cada vez que o ajudavam a tomar banho), mas era careca e faltavam-lhe dois dentes na dentadura... O Norberto também era encantador e sabedor na arte do engate, mas era casado e a mulher dele também habitava aquele lar. Lá por a mulher dele estar em coma, o casamento não deixa de ser sagrado...

Todavia, o meu Zé, o meu filho mais velho, foi despedido, e era ele que pagava a minha estadia neste "lar de luxo". Acontece que não é o meu único "filho despedido" e assim já não havia dinheiro para a mamã estar "internada" naquela espécie de hospício infernal onde me obrigavam a comer canja dia-sim-dia-não e a comer gelatina de pêssego quando o que eu queria era a de ananás.

Estou de volta, meus queridos! Estou em casa. O gato Matias foi quem sentiu mais a minha falta. Tão magrinho que ele está, depois de ter enchido a barriga a todas as gatas da vizinhança. Depois a dona é que tem de ouvir a Gertrudes a gritar porque a gatinha dela está prenha outra vez. Mas não faz mal. Agora, a Antonieta está de volta!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Morrer Como um Homem no Cemitério

Meus Queridos,
Estava eu a ensinar a minha neta a fazer rendas para o enchoval, quando reconheci uma voz da rádio. Eu queria ouvir Rádio Renascença, mas como já é difícil convencer a minha Olívia a fazer renda, decidi dar-lhe algum espaço e deixei-a sintonizar o aparelho na Antena 3. Havia um tal de Alvim e uma Prova Oral que me dava a sensação de ser de muito mau gosto. Mas começo a ouvir a entrevista com mais atenção e apercebo-me que reconheço os entrevistados.

Há meses atrás, um grupo armado de câmaras de filmar invadiu o cemitério da minha paróquia às quatro da manhã. Não é que depois das poucas vergonhas que lá fizeram, tiveram o descaramento de ir falar sobre isso na rádio, para toda a gente ouvir?! Ora oiçam eles a falar do que fizeram lá no minuto 45. http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/prova-oral/?k=Morrer-como-um-homem.rtp&post=15562

Vou-vos contar toda a história. Estava eu na cama, a dormir o meu segundo sono, quando oiço gritos na rua. Gritos estridentes! Assustadores! Parecia que o demónio estava a subir à Terra e o mundo se enchia de dor e ranger de dentes. Afinal, era só a Celeste, mas fazia barulho pela humanidade inteira. Agarrei-me às traves da cama para me levantar e fui até à janela, toda torta por causa das minhas cruzes e ainda vestida com a minha camisa de dormir, que é branca e tem umas rendinhas que eu própria fiz quando era mais nova.

A Celeste corria pela rua com uma vassoura nas mãos e à frente dela estava um batalhão de travestis que tentavam entrar no cemitério! Ai, era a última coisa que eu esperava ver àquelas horas da noite! Homens vestidos de mulheres, cheios de saias e lantejoulas, levavam luzes e câmaras de filmar com eles como se fossem as armas que eles iam usar para invadir aquele espaço sagrado!
Calcei as minhas chinelas e saí assim para a rua para acordar a Gracinda e a Odete, que é a responsável por guardar o cemitério. Eu posso já parecer um pouco velha, porque já sou uma senhora de uma certa idade, mas digo-vos que, saindo assim, na minha camisa de dormir branca e rendada, senti-me belíssima como já não me sentia há anos. O meu cabelo esvoaçava com o vento que apertava aquele tecido leve contra o meu corpo. Senti-me como os anjos se devem sentir. Excepto as dores, claro, e todavia até isso ignorei, tal a satisfação que aquilo me dava. Senti a mão de Deus empurrar-me na direcção daqueles homens perdidos e tomados pelo Demo. Eu gritava e lançava gargalhadas que os faziam gritar a eles. Agora, eram os travestis que tinham medo!

Só quando peguei numa mangueira para os lavar dali para fora, é que a Odete chegou, ainda cheia de sono, a pedir que nós parássemos. Um senhor de gravata tinha um papel que lhes dava autorização para filmarem no cemitério. Agora, era com a Odete que nós gritávamos! Como é que ela tinha permitido uma coisa daquelas. Afinal, parecia que a decisão não tinha sido só dela, mas do padre e do sobrinho dela, que também é um rapaz assim um bocadinho esquisito. Eu tive que largar a mangueira, até porque já tinham avisado a polícia que nós iamos atacar aquelas criaturas. Mas não pensem que voltei para casa. Fiquei de pé, toda a santa noite a ouvi-los. Se não fossem as vozes de homens, parecia quase uma história de amor. Até espreitei pelo portão para ver o que aqueles ladrões estavam a fazer, mas nunca consegui, porque havia um monstro armado em touro que me enchutava de lá para fora de cada vez que eu me aproximava.

Acabei por fingir que tinha desistido e disse ao monstro que me ia deitar, porque já estava cheia de frio. Como eu sou velhota, ele até acreditou. Contudo, a verdade é que eu e a Celeste escondemo-nos atrás de um arbusto. O gato Matias quase que nos desmascarou, mas consegui enchutá-lo antes que ele começásse a miar.

Finalmente, já quase de manhã, quando eles começaram a sair pelos portões do cemitério, eu e a Celeste levantámo-nos e começámos a correr até eles com os nossos cabos de vassoura e atingimos logo dois deles. A Celeste atingiu um traveca mesmo no canto da boca. Eu acertei na Olívia! O que é que aquela vadia da minha neta estava a fazer com aquela gente?

«Pare com isso, avó! Eu só estava a ajudar com a iluminação! Eu trabalho para eles!»
Aquela rapariga tem que aprender umas coisas! Nunca mais a deixei procurar emprego. A trabalhar com travestis! A vergonha que eu senti! O desastre na minha própria casa! O meu Arnaldo até se deve ter contorcido debaixo da terra, só de ter a neta no cemitério a ajudar a filmar um bando de travestis no meio das campas. Desde então a Olívia só trabalhou nos empregos que eu escolhi para ela. Ela pode sofrer um pouco, mas é para o bem dela. Quem é que lhe deu autorização para ser diferente e se dar com gente duvidosa? Eu é que não fui!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 1 de agosto de 2009

Ordenados e Reformas


Primeiro dia do mês e ainda não recebi a minha reforma! Como todos vocês sabem, as reformas são entregues por ordem alfabética. Por isso é que a Gracinda só recebe a reforma dela a meio do mês. Eu, por meu lado, Antonieta recebo sempre no início do mês. Hoje, apanhei o autocarro, fui aos correios, que abrem ao Sábado de manhã, e estive lá desde as nove da manhã até ao meio dia. Uma pouca vergonha! Três horas e ninguém enviou a minha reforma. Eu, Antonieta, que amanhã queria ir à feira da ladra para comprar uns sapatos que condizessem com a camisola amarela que tricotei para a minha neta Olívia. Assim, terei que lhe comprar uns que custem menos de 10 euros, ou fico sem dinheiro para comprar pão.

E por falar em descendentes, muito espantada fiquei quando me cruzei com a Celeste, a caminho de casa, e ela tinha a camisa de seda mais elegante que eu alguma vez a vi vestir. Quase fazia com que ela parecesse mais magra. Juro! Muito bonita a camisa!

Muito bem, onde é que ela foi arranjar dinheiro para uma camisa dessas, quando ela até recebe a reforma depois de mim?

O filho mais velho dela, o Gonçalo, que trabalha numa fábrica de curtumes e cheira sempre mal, recebeu ontem o ordenado e pediu logo à mulher, a Fernanda (que era uma rapariga muito jeitosa quando era nova, mas desde que engravidou do primeiro filho, isso é que foi vê-la engordar), para comprar qualquer coisa para a mãe dele, para agradecer por causa da pobre mulher tomar conta daqueles dois estafermos de netos que ela tem. Pobre coitada.

Mas pobre de mim, também! Tive os meus quatro filhos, de parto natural, casei-lhes os filhos deles e ainda mudo fraldas aos meus bisnetos, e é vê-los agradecer-me! Em vez de me comprarem uma camisa de seda, ou de me convidarem a passar uns dias de férias com eles, ralham comigo por tentar ajudar a minha Olívia a arranjar um bom partido... Que mal faz tentar que a rapariga deixe de gostar de meninas e se case com um rapaz que não se importe com isso? E ainda me dizem que se ela for monossexual isso é normal e eu não tenho nada que a chatear! Chatear! Chamam-me chata! Na minha terra, chatos são uns piolhos que aparecem lá em baixo e fazem comichão! Chamam-me chata! Eu dou-lhes os chatos!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!