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segunda-feira, 23 de maio de 2011

«Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!»



Meus queridos,

Venho por este meio quebrar um voto de silêncio que se prolongava enquanto assistia impávida e serena ao soçobrar da sanidade mental portuguesa.

«Porquê?» perguntam-me vocês, meus queridos, e eu respondo-vos: porque nunca se viu tal esquizofrenia assolar uma sociedade inteira! Ou apenas meia-sociedade, vá. Seremos somente meio-radicais em vez de radicais e meio...

O que aconteceu à populaça revolta que berrava impropérios contra um governo decadente? Num espaço de poucos meses, essa populaça emudeceu, talvez cedendo ao mesmo voto de silêncio que eu vinha perpetuando, sentada no sofá, enquanto o gato Matias aprendia a assaltar o frigorífico e roubava as refeições que as senhoras da Santa Casa da Misericórdia me trazem todos os dias. Até aí, tudo bem, pois, de súbito, aconteceu aquilo por que todos gritavam e ficaram todos a pensar «E agora?»

O governo caiu, conseguimos que os incompetentes cedessem à sua própria incompetência. E agora? Como é que vamos meter o país de pé, que o bicho está gordo e pesado?

Ora, eu fiquei calada, para que quem tivesse ideias se fizesse ouvir.

Todavia, em vez da chegada de um D. Sebastião, continuámos com os mesmos de sempre e, que eu saiba, não apareceu nenhum messias que nos guiasse na direcção do Quinto Império tão apregoado pelo nosso Nandinho do café Nicola. E agora?

Agora, estão todos confusos, esquecidos do que os trouxe até aqui. Há ainda quem pondere voltar a meter ao volante os mesmos que espatifaram o carro! Eles deviam ter ficado sem carta! Quem é que os deixou levantarem-se e dizer «Não se preocupem, isto é só uma amolgadela, se nos deixarem pegar novamente no carro, resolvemos tudo com fibra de vidro e o país fica como novo»? O senhor Sócrates devia estar nos Alcoolicos Anónimos e se o deixarmos pegar no volante outra vez, bem podemos telefonar para a socateira mais próxima!

Estou revoltada. Verdadeiramente revoltada! E Grito!

VOTA, POVO DE PORTUGAL! VOTA À DIREITA, VOTA À ESQUERDA, VOTA NO MEIO, VOTA PELA FRENTE OU POR TRÁS! MAS NÃO SEJAM CRETINOS AO PONTO DE FAZER COM QUE O PAÍS FIQUE NAS MESMAS MÃOS!

O senhor Sócrates já teve seis anos para provar competências e incompetências. Mesmo que não apareça nenhum nadador-salvador, dêem a vez a outro, porque este já mostrou que não sabe nadar e ainda nos arrasta com ele para o fundo do mar. E podem ter a certeza de que aí nem o Moby Dick nem a Júlia Pinheiro nos podem salvar.

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Morta e Engaiolada!


Depois deste incidente com os ladrões em Northampton, o meu filho Zé decidiu que estava na hora de trazer a mãezinha de volta para casa, antes que se metesse mais em sarilhos e acabasse magoada.

Sinceramente, para mim, trazerem-me de volta para Portugal porque não estou segura na Grã-Bretanha é uma enorme piada de mau gosto!

Ora, a primeira notícia que vejo na televisão quando regresso ao meu velho sofá (nem foram capazes de lhe limpar o pó, na minha ausência! Falta de consigre... consigra... uma falta de consigração por quem lhes limpou o rabo quando eram crianças! Uma falta de consigração por quem lhes batia no rabo quando diziam algum palavrão! Eu é que fiz desta família pessoas adultas e de respeito!...)

Onde é que eu ia?

Ah, sim. O sofá...

Sentei-me no sofá, em cima do gato Matias (tive que lhe dar uma bengalada quando me ferrou as unhas no rabo), liguei o televisor, e qual é o meu espanto quando descubro que deixaram uma senhora de idade, em tudo como eu, falecer e apodrecer na sua própria casa durante 9 anos!

Estou chocada! Verdadeiramente chocada! Eu estive na Tailândia e nunca vi tal coisa acontecer! Aliás! Melhor do que isso é o que lá fazem aos drogados! Quando os apanham, nunca mais saiem da cadeia, os desgraçados!

Faleceu a senhora, o cão ao pé do frigorífico e os piriquitos engaiolados, tal como a dona! O primo que a ia visitar todas as semanas foi à polícia, onde lhe diziam que não podiam fazer nada sem ordens do tribunal. Foi 13 vezes ao tribunal e tudo o que conseguiu foi que se rissem na sua cara. Foi preciso o governo, aquela cambada de esfomeados, querer vender a casa para cobrar as dívidas da senhora, que só não as pagou porque estava morta, para que alguém arrombasse a porta e se deparasse com aquele pesadelo.

Se o primo invadisse a casa sem consentimento das autoridades, ia preso. Até o podiam culpar da morte da senhora... Os próprios vizinhos apostavam que a mulher lá estava morta. Toda a gente o sabia. Os que queriam fazer alguma coisa não podiam e os outros não queriam e prontos!...

Enfim, meus queridos... Agora, que estou de volta, e encontro a minha neta casada com a fuf... Oh, Meu Deus! Perdoa-as... Casada com a fufa Diana! Ai, Meu Deus... Elas não fazem por mal. Não sabem as ofensas que Lhe fazem, Ó Senhor...

Bem, encontrei a minha querida Olívia assim e já tive uma conversa séria com ela e com o meu advogado. Ela tem a chave da minha casa e está autorizadíssima a abrir a minha casa sempre que pensar que eu estou morta e padecida! Tenho-vos a vós, meus queridos, como testemunhas das minhas palavras. Além disso, escondi ainda outra chave, caso a moça perca a chave que eu lhe dei (é muito aluado, aquele trambolho tonto que me está sempre a ajudar), nas traseiras do meu quintal, por baixo daquela raíz do pessegueiro com a forma de uma morsa de barriga para cima! Não digam a ninguém! Só ela é que sabe!

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dona Antonieta está de volta!


Meus queridos! Tantas saudades que eu tive de partilhar os meus dias convosco... Depois dos pequenos incidentes com a X-Box de há uns meses atrás, os meus filhos pensaram «A mamã está a ficar muito solitária e isso já não é bom na idade dela. Devíamos enfiá-la num LAR, COM OUTROS VELHINHOS CAQUÉTICOS COMO ELA!» A mim, Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita! Como é que foram capazes? Eu que sempre fiz a minha vida sem ajuda de ninguém, sempre tive a minha casa e lutei pelas minhas coisas! Até os meus bibelôs! A quantidade de vezes que lutei com aquela vaca da Josefa (que ainda não voltou do Brasil) pelos bibelôs que agora enfeitam os meus móveis! Consegui vencê-la sempre! Ela nunca comprou um bibelô que eu quisesse comprar!

Continuando... Eles levaram-me para um lar (supostamente) de luxo, com muitas regalias e muitos velhinhos com quem eu poderia conversar, mas aquilo era uma treta pegada! A maioria dos velhinhos nem falavam! Babavam-se! E aquilo não tinha luxo nenhum, se é que chamam luxo a eu ter o meu próprio quarto e uma casa de banho privada! A isso eu não chamo luxo! Chamo "o mínimo aceitável" para uma senhora como eu! Não vivi estes anos todos para me atirarem areia para os olhos!

Seja como for, lá conhecia a Julieta, uma grande coscuvilheira, mas boa amiga. Podíamos passar horas a conversar. E como o lar tinha muita gente, não era difícil arranjarmos motivo de conversa. Havia sempre os podres de alguém, os boatos deste e daquele... e como ela já lá estava há dois anos, conhecia também muitos outros que também por lá tinham passado, mas que já não se encontravam entre nós. Infelizmente, descobri mais tarde que metade das histórias eram falsas e que da mesma forma que ela falava comigo sobre os outros, falava com os outros sobre mim. Claro que ela não se ficou a rir, quando passaram no noticiário que se tinham casado duas lésbicas em Portugal (o Demo anda ocupado...) e eu me levantei-me e disse, diante de todos, alto e bom som, que uma delas era filha da Julieta!

Perdi uma amiga e ganhei muitas mais. É como na escola. Assim que mostrei que com a Antonieta não se brinca, tornei-me popular. Até tive os meus interesses amorosos. O Manuel Fonseca era muito galante, mas estava tão gordo, valha-me Deus... E o Alberto Silva também era um senhor com H grande (e não só, pelo que as enfermeiras davam a entender com os seus borborinhos, de cada vez que o ajudavam a tomar banho), mas era careca e faltavam-lhe dois dentes na dentadura... O Norberto também era encantador e sabedor na arte do engate, mas era casado e a mulher dele também habitava aquele lar. Lá por a mulher dele estar em coma, o casamento não deixa de ser sagrado...

Todavia, o meu Zé, o meu filho mais velho, foi despedido, e era ele que pagava a minha estadia neste "lar de luxo". Acontece que não é o meu único "filho despedido" e assim já não havia dinheiro para a mamã estar "internada" naquela espécie de hospício infernal onde me obrigavam a comer canja dia-sim-dia-não e a comer gelatina de pêssego quando o que eu queria era a de ananás.

Estou de volta, meus queridos! Estou em casa. O gato Matias foi quem sentiu mais a minha falta. Tão magrinho que ele está, depois de ter enchido a barriga a todas as gatas da vizinhança. Depois a dona é que tem de ouvir a Gertrudes a gritar porque a gatinha dela está prenha outra vez. Mas não faz mal. Agora, a Antonieta está de volta!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Exorcismo - e o fantasma da X-Box

Meus Queridos,
Perdoem-me a minha ausência. Sinto-me tão perdida. Já não sei o que faça da minha vida. Acho que estou a morrer. Como Sylvia Plath dizia, todos nós começamos a morrer a partir do momento em que nascemos, mas desta vez sei que estou mais perto de estar morta do que no dia em que nasci. Assombrada durante a noite e possuída durante o dia, passei quase um mês sem dormir. Sinto-me seca por dentro, como um pão que vai ao microondas durante demasiado tempo.
A minha artrite dá-me cabo dos dedos, mas nem por isso conseguia largar a consola. Inicialmente, comprei aquela porcaria para o gato Matias, porque ele estava de trombas e já não gostava de mim. Contudo, como o Matias não jogava, comecei eu a dar uso à coisa. Depois, apareceram aqueles suspiros e gemidos no meu quarto e tirei a fotografia àquele jovem espectro que me assombrava com aqueles olhos de quem me queria possuir. Pelo aspecto, devia ser um jovem fantasma com uns 18 anos, mais coisa, menos coisa. Agora, não percebo por que decidiu assombrar-me. E acho que ele me possuiu, de facto, porque os jovens, mesmo fantasmas, adoram jogar e eu não largava a consola nem por nada e os meus dedos continuam todos inflamados.

Eu nem sequer gosto de futebol e não parava de jogar Pro-Evolution Soccer 2010! E aqueles monstros aterrorizantes do Halo que me estavam sempre a matar e me provocavam aqueles pesadelos horripilantes! Estive quase um mês sem fazer as lides da casa, sem comer, sem me lavar, nada! As minhas vizinhas pensavam que eu estava a viver em casa dos meus filhos, porque nunca me viam sair de casa. Como é que pode ser? Estive quase um mês sem saber nada da vizinhança! Todas as conversas, brigas, coscuvilhices e segredinhos que eu perdi! À noite, quando tentava dormir qualquer coisa, lá aparecia o safardana do fantasma para me suspirar ao ouvido e me acordar. «Vai jogar, Antonieta! Ainda não chegaste ao último nível!» E eu limitava-me a obedecer, como se o meu próprio espírito já não habitasse mais em mim. O gato Matias já nem me reconhecia. Rugia de cada vez que me via!

Só quando a Celeste e o Senhor Padre vieram a minha casa, porque há já três semanas que eu não ia à missa, é que me livrei do fantasma que me tomava o corpo. Os rostos deles foram tomados de assombro quando mergulharam na obscuridade da minha sala e me viram.

- Dona Antonieta, vocemessê está num estado miserável. Largue a televisão. Precisa de se lavar, de comer...

- Estás a chamar-me porca, padre? Vai mas é para o Inferno chupar pichas com a tua mãe!

A Celeste até desmaiou! Nunca da minha boca tinham saído tais impropérios! Eu gritava e ralhava com eles até que o padre arrastou a Celeste dali para fora e foi chamar o bispo. Entretanto, depois de recuperar os sentidos, a Celeste foi pedir ajuda à pobre Lucinda, a qual, graças às suas cataratas, consegue ver o "outro mundo" com outros olhos.

Quando entraram em casa, plantaram velas por todo o lado e arrancaram-me o comando das mãos!

- Não!!! - Gritei eu, com uma voz que não era a minha. - Não gravei o último nível! Vou perder o jogo!

- O Poder de Deus Compele-te! O Poder de Deus Compele-te!

- Não me chateiem, seus bastardos, filhos de uma grande meretriz!

Foi então que amarraram ao sofá e atiraram a minha X-Box 360 para a lareira, desaparecendo por entre as chamas e o fumo negro do Inferno que encheu aquela casa. E enquanto exorcitavam aquele espírito maligno de dentro de mim, eu gritava e grunhia e cuspia e chamei-lhes nomes que nunca tinha ouvido na minha vida! A partir daí, não me lembro de mais nada. Parece que destrui a minha mesa de vidro da sala, uma moldura da minha querida Olívia, um retrato de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz e até mesmo o tampo da sanita! Depois, quando finalmente conseguiram que o demónio me libertasse, vomitei no lavatório até as tripas me arderem!

Agora, estou melhor. O Senhor Padre pediu às senhoras da Santa Casa da Misericórdia para me ajudarem durante uns dias. Elas podiam lavar-me a casa, trazer-me refeições, dar-me banho... Mas eu mandei-as embora, logo no primeiro dia! Trouxeram-me canja e queriam que eu me despisse à frente delas para me lavarem. Isso eu consigo fazer sozinha! Se me queriam ajudar, levassem-me para as termas e servissem-me caviar!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Matias, a X-Box e o Fantasma...

Meus queridos, já não sei o que fazer. O Matias zangou-se comigo. Eu devia tê-lo levado comigo para o Réveillon. Porém, em vez disso, pensei que ele se ia divertir mais com os amigos e soltei-o. Claro que, como só voltei passados alguns dias, o gato já cospia fogo pelas ventas e estava incrivelmente revoltado comigo. Nunca mais me falou. Dei-lhe pasta de atum, os camarões que roubei à minha nora, até lhe comprei fígado, que o bichano tanto adora. E nada! Nada o fez voltar a ser como era!
Assim, um dia desta semana, a Celeste disse-me que tinha comprado uma daquelas consolas barulhentas para os netos. Aquelas pestes são horríveis! Horríveis! Só vão ter com a avó pelos anos e pelo Natal! Parecem ter saído da minha família... Mas ela continuou a história, e ao que parece ela ofereceu-lhes essa coisa ruidosa para eles ficarem especados à frente da televisão como se fossem uns tontinhos, mas na condição de esta ficar lá em casa dela. A partir daí, todos os dias, depois da escola, as pestinhas vão para casa da avó. Ao início nem lhe ligavam, mas como ela lhes foi preparando uns lanches e uns bolinhos (aquela mulher faz uns bolos quase melhores que os meus... quase!) agora a avó é quase a melhor amiga deles.
Decidi, então, usar a mesma estratégia. Comprei uma consola para o Matias! Mas até agora parece não estar a surtir efeito. Já comecei a mexer naquilo, a ver se lhe faço inveja, mas sou muito má com estas coisas, e o gato continua a ignorar-me.
Entretanto, como o Matias já não dorme comigo e não adormeço com o ronronar dele aos meus ouvidos, comecei a ouvir os ruídos mais estranhos durante a noite. São de arrepiar. Começava por sentir uma presença, apenas, mas pensei que fosse tudo da minha imaginação. Nos dias seguintes, foram os afrontamentos! Credo! Tanto calor! Insuportável. Transpirava-me toda, até tinha que despir a combinação que ficava toda ensopada em suor. Finalmente, de há uma semana para cá, vieram os suspiros. Meu Deus! Se fosse uma galinha, tinha largado um ovo no preciso momento em que ouvi aquilo pela primeira vez! Que susto! Nossa Senhora dos Aflitos nos proteja a todos de uma presença que suspire daquela maneira no nosso quarto!
Decidi contar essa história à minha Olívia, ante-ontem, quando ela veio cá surripiar-me o almoço, porque parece que se zangou com a fufa Diana, com quem já andava a almoçar todos os dias... Valha-nos Deus! Pode ser que a coisa lhe passe e o Demo abandone aquele corpo!
Continuando, a minha neta, toda miserável e chorosa por causa da amiga traidora (ela não mo disse, mas eu sei que foi por isso. Aquelas lágrimas não enganam ninguém. Parece uma porquinha toda inchada e ranhosa quando está desgostosa de amores), disse-me que a melhor maneira de ver se havia alguém a assombrar-me o quarto era dar-me uma máquina fotográfica, para eu apanhar a Besta em flagrante quando começasse a perturbar-me o sono! Claro! O que ela estava à espera era que eu fotografasse a parede ou o tecto e pronto - a avózinha anda a ouvir coisas. Vamos interná-la e fazer as partilhas.
Mas não! Adormeci com a máquina fotográfica nas mãos e quando ouvi aquele sussurro outra vez, saquei do aparelho e Zás! Apanhei a criatura demoníaca mesmo a olhar para mim. Meu Deus! Os arrepios que me dá! Tenho uma aparição nua no meu quarto a assombrar-me os sonhos! Nossa Senhora dos Aflitos me proteja, que já não sei aguento mais destes afrontamentos...

Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 3ª Parte


Um tremor de terra na semana passada? Uma tempestade esta noite? Ainda não acreditam em mim?!
Que não dêem importância aos grandes acontecimentos, já é normal. Não me admiro. Estão sempre a acontecer e são tão falados na televisão que as pessoas já os ignoram. Morreram mil pessoas quando o vulcão explodiu, ou morreram outras tantas com o outro cataclismo... Desde que a nossa casa esteja inteira e ninguém entorne o nosso café, está tudo bem. Suspiramos, murmuramos "pobrezinhos" e coçamos as costas. O que me espanta é que as pessoas não reparem nas pequenas coisas!
Vamos por partes:
Na semana passada, o meu gato Matias estava irrequieto. Mas não era um irrequieto normal. Estava possesso. Abria a boca e rosnava! Depois, atirava-se às cortinas e fugia de mim enquanto alagava todos os trainecos que eu tinha nos móveis! «Anda cá, gato vadio!» Mas ele não me dava ouvidos. Nessa noite - Tumba! Terramoto! E parecia que o mundo estava a cair. Era tal e qual como se viu naquele filme! Não me levantei da cama sem antes ligar a luz do meu candeeiro. Se se tivesse aberto uma fenda por baixo da minha cama, podia cair lá para dentro. E Deus seja minha testemunha: Não hei-de ir para o Inferno!

A noite passada, foi a minha neta Olívia a dizer-me que se queria casar com a fufa Diana! Eu disse-lhe «Anda cá, menina vadia!» Mas ela não me deu ouvidos! Só gritava que agora já se podiam casar e que não estava a fazer nada ilegal, enquanto eu corria atrás dela com uma vassoura! Claro que lhe disse «Pode não ser ilegal para o senhor Sócrates, mas é ilegal para o Senhor lá de cima!» Foi então que os meus comprimidos para dormir começaram a fazer efeito e tombei no sofá! O raio da miúda ainda teve a decência de me desligar as luzes e a televisão, que a electricidade agora está cara. Mas tapou-me com um cobertor até à cabeça, como se eu estivesse morta! Se calhar, foi o que ela pensou. «Olha, matei a velha de susto com esta brincadeira horrorosa!» Ah, pois... Deve ter sido. Porque isto só pode ter sido brincadeira!
Continuando, quando acordei já eram umas quatro da madrugada e o vendaval era tal que quando abri a porta o gato Matias quase levantou voo! Bastou abrir uma frincha da porta para entrar terra, folhas, ramos de árvores, um caixote do lixo e o Sr. Abílio que também já voava.
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pequenos Criminosos e O Fim do Mundo! - 2ª Parte

Uff... Já estou mais recomposta agora...
Como eu vos estava a contar, esta semana vi algo que só podia ser obra do diabo, pela janela do meu quarto.
Pela janela do meu quarto consigo ver o pátio da escola primária, onde aquelas pequenas criaturas a que toda a gente chama crianças brincam e gritam e acabam por chorar algumas vezes. Pois fiquei estarrecida quando vi um espectáculo inimaginável. Um dos miúdos, o Rodrigo, neto da Hortênsia, que tem muito mau feitio, estava sentado nos degraus da escola a observar um pombo. Observava o pombinho, com aqueles olhos redondos de atrasadinho que a avó também tem, com tanta atenção, que seria de esperar que até fosse boa pessoa. Levanta a sacola, tira de lá um pão com marmelada que a mãe deve ter comprado na mercearia do Sr. Alberto, que é muito boa e docinha cá dentro, começa a atirar bocadinhos de côdea ao bicho. O pombo louco a devorar os bocados de pão que voavam pelo ar, o miudinho a observá-lo calado e os colegas a correr e a saltar pelo recreio que nem cabrinhas montesas. Até aqui tudo bem.
Porém, o Rodriguinho farta-se e atira com o papo-seco inteiro ao pombo. Enjojado, o bicho ainda cambaleia algumas vezes, mas depressa se apercebe do banquete que lhe tinha caído em cima e começa a comê-lo. O Rodriguinho deve ter ficado desapontado e levantou-se. Pronto, vai brincar com os amigos, não é? Não! Pega numa pedra bem grande e atira-a ao pombo! Desta vez, o animal não se refez tão depressa. Já nem conseguia fugir do miúdo enquanto este levantava o pedregulho do chão e se voltava a aproximar. O bicho bem que abanava as asas e se contorcia todo, mas já era tarde de mais. Leva com a pedra mais duas vezes antes de parar de se debater. Depois, era ver o Rodriguinho a correr atrás de um colega, com a pedra sangrenta e com penas nas mãos. O colega bem que gritava "Não me toques com essa pedra", mas o Rodriguinho não desistiu enquanto não lhe sujou as calças e um jovem bastante elegante que passava pela rua apareceu para lhe puxar as orelhas.
O Demo andava à espreitei e encontrou ali um súbdito fresquinho! Ele anda à caça de seguidores e o Dia do Julgamento aproxima-se cada vez mais! Temos que ler os sinais! Eles andem aí!
Seja como for, eu adorei ver a forma como aquele jovem rapaz soube dar uns açoites bem valentes no rabo do Rodrigo. Aquele miúdo bem os merecia. O rapaz sabia como dar educação às crianças. "A força da mão é o melhor remédio para a má educação!" Eu sempre o disse. Há-de ser um bom pai, um dia. Tenho a certeza. E, pelo aspecto, julgo que deve ter tudo o que é preciso num bom homem de família, se é que me entendem... Mesmo sendo tão difícil de se enamorar por rapazes, estou certa de que até a minha neta Olívia era capaz de o achar encantador. Oh! acrescentem-lhe uns anos e hão-de ver o homem que ele há-de ser! Já é tão alto e robusto... Esperem para ver!
Acontece que eu não ando a ver o tempo passar, excepto quando não há nada para fazer, e decidi meter mãos à obra. Saí de casa, atravessei a rua e Pum! Estatelei-me no chão. O jovem encantado largou logo o Rodrigo da mão e veio em meu auxílio! Ajudou-me a levantar-me do chão, uma pobre velhinha em apuros. Estava tão desorientada (pensava ele) que nem me lembrava onde ficava a minha casa! Tão prestável que ele era! Levou-me para o emprego dele, onde eu poderia ficar em segurança até alguém me ir buscar. Chamava-se Jorge e trabalhava num cinema. Para quem não sabe, um cinema é como um teatro, onde as pessoas se sentam e vêm um filme numa televisão gigante. Fui algumas vezes, quando era jovem, com o meu Arnaldo. Mas depois os filmes ficaram a cores e perderam a piada. Já não tinham o mesmo encanto.
Continuando, quando lá chegámos, ele puxou uma cadeira para eu me sentar, muito cavalheiro, atrás do balcão, para eu poder fazer uma chamada para alguém da minha família. Telefonei para a minha Olívia, claro. Mas a porcalhona só foi capaz de ir buscar a avó meia hora depois. Tratei logo de os apresentar. Ainda passei as mãos pelo cabelo dela e tirei-lhe aquele maldito gorro que ela agora usa. Penteei-a com os dedos, enquanto ela tentava livrar-se de mim, mas acho que consegui que ela se parecesse com uma cidadã e o querido Jorge foi muito simpático com ela. Disse que não tinha muito tempo, porque as pessoas já estavam a entrar para as salas e ele tinha que ir projectar o filme, mas deixava-nos entrar de graça, se nós quiséssemos. Dei uma cotovelada na Olívia e ela aceitou. Até sorriu para ele. Finalmente, começou a aprender comigo!

Mas, sinceramente, preferia, agora que já vi o filme, que ela tivesse rejeitado a oferta. O filme era estrangeiro e tinha legendas que passavam demasiado depressa e era-me difícil lê-las. Depois havia uma gruta com água a ferver. A história estava um bocado confusa, mas pareceu-me que a água estava a ferver porque ó Inferno estava a chegar à terra. Depois, havia um homem barbudo que não sabia comer sem se babar todo e outro que estava divorciado e tinha levado os filhos a acampar. Finalmente, o diabo parece começar a conseguir abrir umas fendas no chão com terramotos. E que terramotos! Aquilo parecia o fim do mundo! Era gente a morrer em todo o lado e a cair de prédios e aviões a voar pelo meio! Meu Deus! Eu não parava de me contorcer! Estava quase a gritar! Mas como eles deviam ser boas pessoas, Deus até os salvou e eles conseguiram escapar. Mas depois... Ai, Credo! Quando o Diabo consegue escapar por uma montanha... Foi uma explosão de queimar os olhos! Um mar de chamas assustador! Uma nuvem de fumo e brasas a espalhar-se pela terra inteira! Eu não aguentei mais e comecei a gritar! Ainda por cima começaram a agarrar-me por todos os lados! Eram só mãos à minha volta e a puxarem-me! Eu gritava por ajuda! Uma ajuda que não chegava! «Oh, Meu Deus! Oh, Meu Deus! Salva-me! Oh, Meu Deus!» Eu meti as mãos nos olhos e só os abri quando aquelas mãos me largaram e eu já estava fora do cinema. A minha Olívia dizia-me para me acalmar, que era só um filme! Mas como é que podia ser um filme, se eu tinha acabado de ver aquilo tudo! O homem das barbas e aquela gente toda tinha morrido! E a nuvem demoníaca que saiu com a explosão de certeza que vinha a caminho! Eles podiam achar que não, mas aquilo tinha acontecido e de certeza que era o diabo a invadir o mundo! Eles não perceberam o filme! Aquilo era a sério e eles não perceberam!
O Jorge chamou um táxi e a Olívia levou-me até casa. Deu-me um chá e chamou a fufa Diana para me dar uns comprimidos que ela toma quando está nervosa, mas ainda não consegui parar de tremer! Nem durmo bem à noite! O mundo é grande, mas eu sei que ele vem aí. Foi por isso que Deus me deu o gato Matias! É o meu guardião. E é ele que vai decidir se eu fico cá em baixo a arder ou se vou para o Céu! E eu hei-de ir para o Céu, ou não me chamo Antonieta!
Sinceramente,
Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"Bai Bai!"


Acabei agora de jantar com o gato Matias. Este gato malvado anda levado da breca e exige de mim o mesmo que uma pessoa adulta. Desde que começou a falar, não tem tento na língua. Só com refeições à mesa é que o bichano se acalma. Se não lhe faço as vontades, acusa-me logo com aqueles olhos demoníacos. Descobri que ele já não quer comida enlatada, porque lhe provoca gases. A sua comida preferida é fígado e rins com ervilhas e não suporta que lhe dê anchovas! Nunca mais caio no erro de lhe dar anchovas. Rugia como um monstro e trepava pelas paredes como se estivesse possuído. Mas não me vou queixar. Eu sei que o Senhor me está apenas a testar, e este gato há-de ser o meu julgador na hora final. E hei-de agradar o bicho, custe o que custar, ou não me chamo Antonieta Piriquita!

Ora, hoje foi um dia que nunca mais acabava, pelo que jantar com o Matias foi o menor dos meus males. E olhem que jantar com este animal não é a coisa mais fácil do mundo. Tudo começou com a dona Teresa a choramingar-se, esta manhã. Tinha eu acabado de lavar a loiça do meu pequeno almoço, quando a vejo pela janela da minha cozinha. Estava toda vermelha, a mulher! Nem sabe como fica nojenta com o ranho a sair-lhe das ventas, inchada que nem um tomate e aqueles olhos esbugalhados de mulher levada. A Dona Teresa nunca foi uma senhora muito normal. Ela deve ter nascido com os seus problemas, e acho que tudo piorou quando se apercebeu que era feia. Qualquer coisa que aconteça, fica logo endoidecida. Chamei-a para casa e meti logo uma chaleira no lume para lhe fazer um chá de tília que acalmasse aquele bicho, porque não estava para aturar aquela brutidão a manhã toda. Temos que a amansar primeiro.

Aqui na vizinhança, ninguém gosta muito de a aturar, mas como a dona Teresa sabe tudo sobre toda a gente, todas gostam de a ouvir falar. Como em terra de cegos, quem tem um olho é rei, ninguém quer ficar em desvantagem. Há que saber tudo sobre todos, para o caso de circularem boatos sobre nós. Acontece que a Teresa esta manhã estava a chorar porque o marido da Jertrudes lhe respondeu "Bai Bai" quando ela lhe deu os bons dias na padaria! Ela não podia crer que aquele homem tivesse o descaramento de a ofender com palavras estrangeiras à frente de toda a vizinhança. O marido da Jertrudes viveu na América durante os anos do Salazar. Há quem diga que fosse porque cá não tinha dinheiro, mas eu digo que foi porque ele era um desavergonhado que fornicava com a moça mais nova da dona Custódia, que era muito boa senhora e não tinha culpa das filhas degenerarem, e teve que fugir para não ter que se casar com aquela porcalhona desavergonhada, que segundo dizem se foi prostituir numa ilhota grega e vendeu os filhos a troco de pão.

Assim, desde que veio do outro lado do mundo, onde andam a encher as pessoas de pão e carne como se preparassem os porcos para a engorda (Hão-de se começar a comer todos uns aos outros! Vão ver!), o marido da Jertrudes teve sempre a mania de só dizer nomes e palavrões naquela língua de pagãos. Acha-se tão importante que não pode mandar as pessoas à merda em português. Em inglês é mais fino! Fiquei impressionada com esta história da dona Teresa. A mulher realmente ficou transtornada, porque não conseguiu esconder o choque quando ele lhe chamou "Bai Bai!" Fugiu logo da padaria e ficou o mundo inteiro a rir-se dela. Eu não faço ideia o que quer dizer "Bai Bai", mas não deve ser coisa boa...

Seja como for, eu disse-lhe para não pensar mais no assunto, que não devia ser uma ofença assim tão grande. Afinal, por que razão havia ele de a ofender muito, por ela lhe desejar "Bom dia!"? Não devia ser nada pior que parva ou chata. Enchi-a de bolinhos de centeio e ela limpou as beiças ranhosas e começou a desbobinar. Contou-me coisas que eu nunca imaginava. A fufa Diana, como a gente chama à filha da Virginia, traiu a namorada com outra rapariga. Eu fiquei logo de orelha espetada, temendo que ela dissesse o nome da minha querida Olívia, que eu tanto tento que não se estravie dos bons caminhos. Mas é teimosa que nem uma burra, aquela miúda! Tão perdida! E eu rezo tanto para que Deus lhe ponha juízo naquela cabeça!

Enfim... Tive que a mandar embora quando chegou a hora de almoço, porque ela não se calava e eu sei que o Matias se enerva quando ela está em casa, principalmente à hora de almoço! Aproveitei os restos de carne assada do jantar e disse ao gato que era de hoje. Ele acreditou. Ou pelo menos não se queixou. Telefonei à Olívia, para ela fazer companhia à sua avó durante o almoço, mas a rapariga atrevida disse que tinha ido almoçar no restaurante chinês dos Chuing, com um rapaz tinha conhecido quando ainda andava na escola. Os Chuing são uma família que veio viver para Portugal já há dez anos, mas ainda não sabem falar português. Ou são burros, ou fingem que o são. Seja como for, não acreditei nela, e fui ver com os meus próprios olhos. Nem almocei.

Quando cheguei àquele restaurante manhoso, com cheiro a peixe cru e ratazanas do tamanho de gatos a guardar as traseiras, procurei logo por ela, mas o chinesinho Lipopó mais novo atravessou-se logo à minha frente a perguntar-me se eu quelia comêle clépe chinês, alôz chau-chau, sói-sói de polco e outras barbaridades do género. Tive que o enchutar com duas bengaladas no lombo para ele me deixar em paz. Foi então que vi a minha neta desavergonhada a falar com a fufa Diana! Nem quis acreditar! A almoçar com um rapaz da escola? A fufa Diana pode ser mais machona que muitos rapazes de hoje em dia, mas tanto quanto sei, Deus fez dela uma mulher!

Já me estava eu a preparar para as coçar de bengala, quando a fufa Diana pediu que eu me sentasse com elas e, não sei bem como aconteceu, fiquei a conversar com elas a tarde inteira. A fufa Diana pode ter os seus defeitos, mas é muito boa pessoa. Só de olhar para mim, percebeu que a minha artrite estava pior. Disse-me logo que eu tinha que ir depressa ao médico. E viu qualquer coisa estranha nos meus olhos. Será que estava a ficar com cataratas? Fiquei coberta de medo! Como a rapariga é auxiliar no hospital, contacta com muita gente e já sabe identificar muitos problemas de saúde. E deixou-me seriamente preocupada! Nós, de um momento para o outro, estamos com os pés para a cova e nem nos apercebemos! E eu ainda era demasiado nova para ter os sinais que ela me encontrou na bochecha esquerda! Podia ser o início de um cancro maligno! E ela apercebeu-se das minhas cruzes... Disse-me que uma banana ou um pepino todas as manhãs me iam trazer anos de vida. Deus a oiça! Eu que andava a julgar aquela rapariga... Afinal, a fufa Diana até tem uma boa alma.

Fui logo marcar consulta e quando cheguei a casa, às cinco e meia, já estava a anoitecer, e o gato Matias a pedir-me o jantar. Fiz carapaus para nós dois, porque o peixe tem ferro por comer os anzóis quando é pescado, e se já tenho tantos problemas de saúde, não preciso também de uma anemia. O gato torceu a orelha, porque preferia filetes de pescada, mas eu não fiz caso do que ele me disse. Este dia deixou-me arrasada. A dona Antonieta pode ser rija, mas já é velha e não aguenta de tudo. Vou repousar agora e amanhã de manhã começo já a minha dieta de banana e pepino como a fufa Diana aconselhou. Deus guarde a sua boa alma.

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

«Nunca Mais!» - Especial Dia das Bruxas


Na noite passada, não consegui dormir. Não sei por que é que tudo aquilo aconteceu... Se foi de me ter enganado durante a missa, enquanto estávamos a rezar o Pai Nosso... Talvez fosse! Em vez de dizer «Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,» eu disse algo do género «Assim como não perdoamos a quem nos tem ofendido». Na altura não pensei que Nosso Senhor Jesus Cristo ficasse ofendido, mas agora que penso que Ele foi pregado numa cruz por nos ensinar o Pai Nosso, é capaz de ficar bastante aborrecido quando nos enganamos. Vendo bem, Ele fez um enorme sacrifício e o mínimo que podemos fazer é dizer o Pai Nosso sem nos enganarmos...

Na noite passada, o gato Matias começou a falar! Só aprendeu duas palavras, mas não se calava com isso!

Tudo começou por volta da meia-noite, com uns toques na porta do meu quarto. «Quem será a esta hora?» Pensei eu. «Quem será que bate à minha porta?» Permaneci deitada, pensando para comigo que era apenas uma visita à minha porta. Apenas uma visita e nada mais. Subitamente, pensei «Será a Olívia quem bate à minha porta?» e então a minha mente encheu-se de medos de que nem eu alguma vez imaginara... «Será um vagabundo para me violar? Será um jovem vagabundo quem está a bater à minha porta? Ou apenas a minha neta Olívia para me matar?» E com a força com que o meu coração batia, também a porta estremecia. Foi então que me levantei da cama, sem mais hesitações. Levantei-me e caminhei até à porta. «Senhor!» Disse eu, «Ou senhora! Peço-lhe o meu perdão, mas estava já a dormir quando veio bater gentilmente à minha porta». Abri então a porta de par em par... Trevas... Escuridão... e nada mais...

Ali, enfrentando as trevas, fiquei pensando, imaginando, sonhos que nenhum mortal alguma vez ousou sonhar. Foi então que o silêncio foi interrompido. «Antonieta...»

«Antonieta?» murmurei eu, para ter a certeza do que tinha ouvido e nenhum eco o repetiu. Regressei ao meu quarto e fechei a porta. Voltei então a ouvir bater. Um pouco mais alto do que antes. «De certeza que é na janela. É na janela que estão a bater.» Abri a cortinas e vi o luar. A lua e as árvores e nada mais. Abri então a janela e um gato saltou para o meu parapeito. Saltou para o parapeito e correu pelo quarto. Correu até se sentar em frente da porta do meu quarto.

«Matias Francisco! Gato malvado!» Ficou sentado e nada mais. Inclinou a cabeça e juro que lhe vi um sorriso. Nunca vira um sorriso na cara daquele gato.

«Nunca Mais!» Disse ele, subitamente. Disse ele numa voz grave e tenebrosa, enquanto o meu grito ecoava pelo quarto e pelas ruas desertas do bairro. Porém, o Matias permaneceu sentado. Nunca uma criatura olhara para uma pessoa como os olhos julgadores daquele gato. Nem um pêlo eriçou. Imóvel como uma escultura. E aqueles olhos com que me julgava. «Ele vai-se embora» pensei eu, «abre-lhe a porta e ele não volta mais.» E ele repetiu «Nunca Mais!»
Agarrei então numa cadeira e comecei a agitá-la à frente dele. À frente do gato, da porta e da foto do meu Arnaldo. Comecei então a pensar, conquanto eu me conseguia acalmar, no que é que aquele gato queria dizer com as palavras «Nunca Mais!» E a luz do luar incidiu sobre o retrato. Incidiu sobre a foto do meu Arnaldo e fez-me pensar «Quererá o gato dizer que não voltarei a ver o meu Arnaldo? O meu falecido marido Arnaldo? Não devo pensar mais nele então...» e um sorriso encheu o meu espírito e enquanto eu virava a moldura ao contrário o gato murmurou «Nunca Mais!» Todo o meu corpo estremeceu, com a voz daquele gato.

«Profeta!» Disse eu, «Profeta ainda, mesmo que sejas coisa do diabo. Assegura-me, tu que a esta casa vieste assombrar de horror, diz-me de verdade, eu imploro, que é por ter que me arrepender do meu passado! Diz-me que vieste pelos meus fantasmas, diz-me, eu to imploro!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

«Profeta!» Disse eu, «Diz-me pelo Céu e pelo Deus que ambos adoramos, diz-me por quem foste enviado! Eu to imploro! Foi pelo Frederico Rodrigo ou pelo meu Arnaldo? Diz-me que eles estão no descanso sagrado. Diz-me que repousam no descanso eterno para que o meu coração fique sossegado!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

«Sejam essas palavras a nossa despedida, gato ou amigo!» Gritei eu, esganiçada! «Vira-me as costas e parte para a noite. Parte e não deixes um único pêlo para trás, que farta de varrer os teus pêlos estou eu! Deixa-me só na minha solidão e sai da frente da minha porta! Tira as garras do meu coração e separa esses olhos da minha alma!». Respondeu-me o gato: «Nunca Mais!»

E o gato, sem nunca se mexer, continua sentado. Continua sentado à porta do meu quarto. E os seus olhos parecem os olhos de um demónio que nunca dorme. E a lâmpada no tecto espalha a sombra dele pelo chão do meu quarto. E a minha alma presa àqueles olhos de demónio não voltará a repousar - Nunca Mais!

«Não faz mal.» Penso eu. «Terei que viver com isso». Agora, vou fazer o almoço. A minha neta Olívia vem cá almoçar comigo e ler-me uns poemas de um tal de Edgar Qualquer-Coisa. Talvez isso me acalme e me distraia das palavras com que aquele gato me assombrou... Nunca Mais...

Sinceramente, assombrada...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Morrer Como um Homem no Cemitério

Meus Queridos,
Estava eu a ensinar a minha neta a fazer rendas para o enchoval, quando reconheci uma voz da rádio. Eu queria ouvir Rádio Renascença, mas como já é difícil convencer a minha Olívia a fazer renda, decidi dar-lhe algum espaço e deixei-a sintonizar o aparelho na Antena 3. Havia um tal de Alvim e uma Prova Oral que me dava a sensação de ser de muito mau gosto. Mas começo a ouvir a entrevista com mais atenção e apercebo-me que reconheço os entrevistados.

Há meses atrás, um grupo armado de câmaras de filmar invadiu o cemitério da minha paróquia às quatro da manhã. Não é que depois das poucas vergonhas que lá fizeram, tiveram o descaramento de ir falar sobre isso na rádio, para toda a gente ouvir?! Ora oiçam eles a falar do que fizeram lá no minuto 45. http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/prova-oral/?k=Morrer-como-um-homem.rtp&post=15562

Vou-vos contar toda a história. Estava eu na cama, a dormir o meu segundo sono, quando oiço gritos na rua. Gritos estridentes! Assustadores! Parecia que o demónio estava a subir à Terra e o mundo se enchia de dor e ranger de dentes. Afinal, era só a Celeste, mas fazia barulho pela humanidade inteira. Agarrei-me às traves da cama para me levantar e fui até à janela, toda torta por causa das minhas cruzes e ainda vestida com a minha camisa de dormir, que é branca e tem umas rendinhas que eu própria fiz quando era mais nova.

A Celeste corria pela rua com uma vassoura nas mãos e à frente dela estava um batalhão de travestis que tentavam entrar no cemitério! Ai, era a última coisa que eu esperava ver àquelas horas da noite! Homens vestidos de mulheres, cheios de saias e lantejoulas, levavam luzes e câmaras de filmar com eles como se fossem as armas que eles iam usar para invadir aquele espaço sagrado!
Calcei as minhas chinelas e saí assim para a rua para acordar a Gracinda e a Odete, que é a responsável por guardar o cemitério. Eu posso já parecer um pouco velha, porque já sou uma senhora de uma certa idade, mas digo-vos que, saindo assim, na minha camisa de dormir branca e rendada, senti-me belíssima como já não me sentia há anos. O meu cabelo esvoaçava com o vento que apertava aquele tecido leve contra o meu corpo. Senti-me como os anjos se devem sentir. Excepto as dores, claro, e todavia até isso ignorei, tal a satisfação que aquilo me dava. Senti a mão de Deus empurrar-me na direcção daqueles homens perdidos e tomados pelo Demo. Eu gritava e lançava gargalhadas que os faziam gritar a eles. Agora, eram os travestis que tinham medo!

Só quando peguei numa mangueira para os lavar dali para fora, é que a Odete chegou, ainda cheia de sono, a pedir que nós parássemos. Um senhor de gravata tinha um papel que lhes dava autorização para filmarem no cemitério. Agora, era com a Odete que nós gritávamos! Como é que ela tinha permitido uma coisa daquelas. Afinal, parecia que a decisão não tinha sido só dela, mas do padre e do sobrinho dela, que também é um rapaz assim um bocadinho esquisito. Eu tive que largar a mangueira, até porque já tinham avisado a polícia que nós iamos atacar aquelas criaturas. Mas não pensem que voltei para casa. Fiquei de pé, toda a santa noite a ouvi-los. Se não fossem as vozes de homens, parecia quase uma história de amor. Até espreitei pelo portão para ver o que aqueles ladrões estavam a fazer, mas nunca consegui, porque havia um monstro armado em touro que me enchutava de lá para fora de cada vez que eu me aproximava.

Acabei por fingir que tinha desistido e disse ao monstro que me ia deitar, porque já estava cheia de frio. Como eu sou velhota, ele até acreditou. Contudo, a verdade é que eu e a Celeste escondemo-nos atrás de um arbusto. O gato Matias quase que nos desmascarou, mas consegui enchutá-lo antes que ele começásse a miar.

Finalmente, já quase de manhã, quando eles começaram a sair pelos portões do cemitério, eu e a Celeste levantámo-nos e começámos a correr até eles com os nossos cabos de vassoura e atingimos logo dois deles. A Celeste atingiu um traveca mesmo no canto da boca. Eu acertei na Olívia! O que é que aquela vadia da minha neta estava a fazer com aquela gente?

«Pare com isso, avó! Eu só estava a ajudar com a iluminação! Eu trabalho para eles!»
Aquela rapariga tem que aprender umas coisas! Nunca mais a deixei procurar emprego. A trabalhar com travestis! A vergonha que eu senti! O desastre na minha própria casa! O meu Arnaldo até se deve ter contorcido debaixo da terra, só de ter a neta no cemitério a ajudar a filmar um bando de travestis no meio das campas. Desde então a Olívia só trabalhou nos empregos que eu escolhi para ela. Ela pode sofrer um pouco, mas é para o bem dela. Quem é que lhe deu autorização para ser diferente e se dar com gente duvidosa? Eu é que não fui!

Sinceramente...

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Caloiros nos meus Crisântemos!


Há um ano atrás, fui até à universidade e, após passar por entre toda aquela juventude perdida, fui fazer a minha queixa:

«Estou farta de ter caloiros nos meus crisântemos! E a culpa é vossa! Praxam-nos tanto que se vão esconder nos meus canteiros! Parece uma praga de gafanhotos!»

Ao que me responderam:

«Não se preocupe, Dona Antonieta. Vamos já falar com a Associação de Estudantes e a situação para o ano não se torna a repetir.»

Indignadíssima, virei-lhes costas e saí de rompante daquela escola. Mas não sem antes chutar dois rapazolas no rabo! As mães deviam ensiná-los a meter as camisas para dentro e a fazer a barba! Parecem bandidos!

Este ano não se esconderam nos meus crisântemos, mas foram todos para o relvado que fica do outro lado da rua. Todo o santo dia a praguejar e a fazer barulho. Pedi ao Sr. Abílio para os ir enchutar de lá para fora, mas o homem, que sempre foi muito cobarde, graças à mãe dele que bebia aguardente quando estava emprenhada, ficou quieto a olhar para aqueles futuros doutores engravatadinhos a mandar as crianças rebolar pela relva. Duas horas que ele ficou parado, de braços cruzados, a olhar para eles!

Então, decidi tratar daquela praga como os ingleses quando chegaram à Austrália: com outra praga! Fui à casa da Josefa, que desde que foi para o Brasil nunca mais foi lavada, e enchi um frasco de compota com centenas de bichos, todos muito pequenos! Sei que havia pulgas, pequenas aranhas, lacraus, caruncho, borboletas, tantos tantos mosquitos e criaturas que eu nunca vi na minha vida! Só sei que eram tantos que encheram o frasco até ao cruto!

Peguei então no Matias e disse-lhe:

«Gato malvado, não me arranhes! Deixa-me pôr-te a coleira!»

E lá fomos nós, passeando pela relva e, sem querer, deixei cair o frasco aberto no meio daquela gente toda e fomo-nos embora... Só me apercebi que não tinha o frasco quando cheguei a casa...

No dia seguinte, passei pela escola para deixar uma tarte que eu fiz para a Associação de Estudantes. Há anos que não me sentia tão satisfeita. Não bati em nenhum rapazola. Caminhei por entre eles, toda sorrisos, enquanto os via coçarem-se! Ainda disse a duas rapariguinhas que aquelas papas que elas tinham nas pernas só desapareciam com azeite e óleo de amêndoas doces! Amêndoas doces!!! Ai, Meu Deus! Sei que pequei, mas soube-me tão bem! Já não me ria assim... Sei lá aos anos! Desde que o meu marido faleceu!

Com a Antonieta ninguém se mete!

Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Matias - O Gato Pirómano


Meus Queridos,
A Dona Antonieta está de volta! O meu netinho Afonso levou-me o Magalhães dele quando foi de férias e desde então só pude relatar os meus dias ao meu gato, o Matias. Valha-me alguém que me oiça sem dar opinião. Mas os olhos daquele gato bem que me julgam, uma vez por outra. Quando lhe disse que escondi as flores que a Madalena levou para a igreja porque eram feias e atraiam os pulgões, o malandro revirou os olhos e foi-se embora.
Mas eu disse-lhe: «Matias Francisco! Não me revires os olhos dessa maneira que eu ainda me lembro daquela vez em que tive que te meter betadine na cabeça por teres tentado saltar na gata da Jertrudes! Gato variado! Eu é que sei!»

E foi nessa noite que o ladrão atirou o meu diário para a lareira. Fiquei logo com os meus filhos à perna a dizer que era melhor enfiarem-me num lar barato, porque a mamã já andava a pegar fogo às coisas. E não é que todos se riram na minha cara quando eu lhes disse que tinha sido o gato Matias! O Ultraje! Mas o Matias não se ficou a rir. Ninguém goza com a Antonieta! Ficou dois dias sem comer!
Sinceramente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Saudações, Camaradas!


Sejam muito bem vindos ao meu diário.


O meu nome é Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita e como o meu gato atirou o meu último diário para a lareira, decidi usar este brinquedo do meu bisneto Afonso.

Nos próximos tempos, quando eu souber trabalhar melhor com este estranho Magalhães, partilharei convosco as minhas aventuras, emoções e vivências do dia a dia. Agora tenho que me despachar, porque a porca da Josefa, a minha vizinha, já me anda a destruir as flores do meu canteiro outra vez. Desta vez, ela vai conhecer o sofrimento.


Muitos beijinhos, meu filhos. Que Deus vos acompanhe, na Paz do Senhor...


Atenciosamente,

Antonieta de Jesus Cristo-Rei no Céu e na Terra Aleluia Piriquita!